É sempre um risco conhecer um autor cuja obra admiramos e que pode se revelar uma figura grotesca ou, pior, desinteressante. O encontro com Emmanuel Carrère, que veio lançar seu livro mais recente, "Colcoz", no Brasil, talvez fosse o mais propenso a criar expectativas dessa natureza.

O autor, que testemunhou o terror de um tsunami, escreve, em "Outras Vidas que Não a Minha", sobre a pontada de ciúme que sentiu enquanto sua esposa dava atenção ao casal que acabara de perder a filhinha afogada. Ou, ainda, ele faz o leitor sentir vergonha alheia pela forma pretensiosa como tratou sua namorada em "Um Romance Russo".

Em cada um de seus livros, veremos esse autor-personagem se debruçar sobre grandes temas e personalidades ao mesmo tempo em que confessa sua pequenez demasiadamente humana. Essa combinação entre o acontecimento arrebatador, a pesquisa abissal e o mais pueril em nós faz de Carrère um autor singular.

Quem imagina que amadurecer é erradicar nosso lado infantil pode se beneficiar da leitura desse francês, cuja escrita demonstra muitos dos conceitos freudianos. Carrère, que escreve sobre sua internação para tratar de uma depressão grave no livro "Ioga", aponta os limites do método psicanalítico, muitas vezes vendido como panaceia.

Ainda assim, em seus livros vemos o inconfessável sendo exposto ao escrutínio público, o que me soa muito próximo de uma análise.

O processo analítico tem como norte o fim da crença em qualquer superioridade moral entre nós. Freud é claro: somos feitos da mesma lama, embora façamos coisas muito diferentes com ela. O sadismo que produz o torturador ou o cirurgião bebe da mesma fonte, mas desemboca em lugares bem distintos.

Carrère quer saber como nos viramos com o que nos iguala, embora nossa escolha ética sobre o que fazer com isso possa nos afastar irremediavelmente.

Daí sua profunda curiosidade por um personagem como Jean-Claude Romand, que mentiu ser pesquisador da OMS durante 18 anos em busca de prestígio e reconhecimento. Ele foi capaz de matar os filhos, a esposa e os pais quando estava em vias de ser desmascarado. O caso notório na França está no estonteante "O Adversário".

Expondo seus demônios, não sem alguma dose de crueldade, o autor parece confortável ao lado de uma humanidade para a qual aprendeu a olhar com curiosidade e compaixão. De forma coerente, diz não suportar quem se mostra alheio à tragédia alheia.

Num momento no qual manipulamos midiaticamente nossas imagens, ora alardeando qualidades, ora confessando defeitos com a intenção de gerar identificação e likes, seus livros se mostram tão duros quanto necessários.

Escritos por quem investigou a própria fé em "O Reino", seriam um bom antídoto para a atual empáfia dos que utilizam a religião para se dizer acima do bem e do mal. Manobra denunciada inclusive por religiosos que se indignam com quem faz uso do sagrado. São esses os tipos que vão estampar as manchetes de jornal com escândalos sexuais ou financeiros, depois de apontar o dedo para outras crenças e supostos pecadores.

A depender da psicanálise, quanto mais nos convencemos de que, mesmo não sendo grande coisa, somos capazes de belos gestos, maiores são nossas chances de sermos decentes uns com os outros.