O grande amor da vida de Anielo começou de forma inesperada, na avenida do Estado, em São Paulo, quando um cachorrinho saiu correndo de dentro de uma casa e acabou atropelado por seu carro. O músico socorreu o filhote, pagou a cirurgia e cuidou dele na recuperação. Quando tentou devolvê-lo, a família não o quis de volta.

Foi o destino: o vira-latinha virou seu companheiro inseparável e passou a se chamar Tommy, homenagem ao clássico álbum conceitual do The Who, banda inglesa de rock do furioso baterista Keith Moon, de quem ele era fã.

Nascido em São Paulo e criado na região do Ipiranga, zona sul da capital, Jorge Anielo Alfani descobriu cedo que seu lugar no mundo era atrás dos tambores. Dono de ouvido afiado, não completou o ensino médio porque a urgência da música falava mais alto.

Para comprar sua primeira e modesta bateria, aos 11 anos, trabalhou numa oficina mecânica. Era ali que começava a trajetória de um artista autodidata: ele escutava LPs segurando a mão nos alto-falantes ou na vitrola para sentir as vibrações do ritmo antes de reproduzi-lo com precisão cirúrgica.

Anielo lapidou um estilo próprio e um "timing" rítmico que fascinava colegas. Esse conhecimento o levou a lecionar no renomado Conservatório Souza Lima.

"Anielo não tocava bateria só com as mãos, tocava com o coração. E a mesma intensidade que ele colocava em cada batida nos palcos ele entregava para o Tommy e para tudo o que amava", afirma a namorada Regina Triviño, 50, professora.

Dividiu palcos com artistas como Afonso Nigro, ex-integrante do grupo Dominó, com quem formou parceria no projeto Rock Rei, dedicado aos sucessos de Roberto Carlos com pegada mais roqueira.

Integrou a banda Velotroll 80' e acompanhou artistas como Simone, Roberta Miranda, Beth Guzzo e Espírito Cigano. Era figura carimbada nos redutos da cidade como Café Piu-Piu e Bourbon Street, além do tributo Invisible Touch, dedicado a Phil Collins.

São-paulino, chegou a gravar o hino do time do coração no programa "Rock e Gol", da extinta MTV. Era também defensor da causa animal e resgatava gatos e cachorros de rua.

Com a mãe, Rosely, 73, mantinha uma relação delicada: chegava da madrugada de shows e deixava um bombom ao lado da cama dela, além de saírem para tomar sorvetinho.

Mesmo após diagnóstico de câncer agressivo, manteve o espírito indomável. Em agosto, debilitado, pegou suas baquetas e subiu ao palco do Quintas Bar do Ipiranga para celebrar seu aniversário de 53 anos.

Morreu em 26 de setembro, aos 53, em decorrência do tumor. Ele deixa namorada, mãe, pai, irmão, amigos de estrada e Tommy.