Morreu na última terça-feira (8) a professora, artista e militante do movimento negro paraense Zélia Amador de Deus, 76. Primeira vice-reitora negra da UFPA (Universidade Federal do Pará), ela fundou o Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa), ao lado da engenheira agrônoma Nilma Bentes.

Nascida na Ilha do Marajó em 24 de outubro de 1949, na fazenda Soure, era filha de mãe solo. Depois se se mudou para a periferia de Belém com o resto da família: a mãe, que era empregada doméstica; o avô, vaqueiro que foi trabalhar na construção civil; e a avó, que lavava roupa para fora.

Especializou-se em teoria literária e completou o doutorado em ciências sociais na mesma UFPA, onde foi vice-reitora entre os anos de 1993 e 1997. Antes, em 1988, havia feito mestrado em estudos literários na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Ainda recebeu um título de doutora honoris causa pela Universidade Estadual do Pará.

No cenário artístico, participou do grupo de teatro Cena Aberta e foi diretora do Centro de Letras e Artes da UFPA de 1989 a 1993.

Para ela, a luta política não estava dissociada da arte. "As coisas se entrelaçam ao longo do tempo, a cultura negra é instrumento de luta", disse ela em 2022.

Também fundou o Grupo de Estudos Afro-Amazônicos na mesma UFPA, e integrou na juventude a Ação Popular, e depois a VAR-Palamares, ambos grupos que lutaram contra a ditadura militar.

Zélia integrou a delegação de ativistas brasileiros na Conferência das Nações Unidas Contra o Racismo, Xenofobia e Formas Correlatas de Intolerância em Durban, África do Sul, no ano de 2001. Atuação que foi fundamental para a criação da Lei de Cotas.

Em 2020, Zélia também foi a primeira mulher negra a receber o título de professora emérita da UFPA.

Em nota, a universidade disse que ela participou de "articulações nacionais e internacionais de enfrentamento ao racismo e com papel fundamental na construção e defesa das políticas de ação afirmativa na universidade". Também foi homenageada em 2021 como enredo da escola de samba Os Colibris, de Belém.

No dia 18 de agosto deste ano, a professora foi homenageada com o plantio de uma árvore baobá na universidade.

Para a ativista paraense Nilma Bentes, Zélia fará falta ao movimento negro como um todo, sobretudo na área acadêmica. "Seria bom que algumas pessoas durassem mais. Desejamos que muitas Zélias surjam para a conquista de equidade/igualdade racial nesse Brasilzão."

O Governo do Pará decretou luto oficial de três dias, e diferentes organizações, como Embrapa, Imazon, Criola e Geledés – Instituto da Mulher Negra, homenagearam a professora.

Em texto publicado em 2023, ela afirmou "e, assim, continuamos resistindo e, embora nossos jovens negros sejam mortos ou encarcerados com frequência, nossa incessante luta há de criar o tempo negro. Um tempo livre do racismo e da discriminação racial".

Zélia deixa três enteados, o irmão Carlos Cezar Amador de Deus e o companheiro Anselmo Bentes de Oliveira. Deixa também um legado para toda a sociedade brasileira.