Dizem que tem gente que parece nunca envelhecer. Para mim, é como se todos estivessem ainda na primeira década do milênio.
Conforme minha visão diminuía, o acervo de rostos conhecidos na memória foi se congelando. Até o ano passado, eu achava que o William Bonner ainda tinha cabelos escuros.
Há casos ainda mais drásticos, como o de Maísa Silva, que, para mim, ainda é a menininha sorridente junto ao Silvio Santos. Sem falar em rostos que surgiram depois e não conheci, como a Virginia, o Jão ou o Daniel Vorcaro.
O mesmo acontece com quem está perto. Na saída do trabalho, uma colega quis entender como isso funcionava na prática. Percebeu que nunca havia se descrito para mim. Expliquei que, quando não sei como é o rosto de uma pessoa, invento involuntariamente um ao escutar a voz dela.
Minha amiga resolveu testar e perguntou como eu achava que ela era. Coloquei cabelo encaracolado onde era liso, aumentei o nariz e só acertei mesmo o branco do olho.
Cheia de iniciativa, ela resolveu levar o assunto para nossa próxima reunião geral da equipe. Após duas horas de discussão, quando o café já tinha acabado, falou que era hora de todos se descreverem para mim.
Quinze colegas cumpriram o chá revelação de aparência. Falaram sobre cor da pele, olhos e cabelos —quando havia—, roupa que usavam e outros itens.
Eu, que na infância me questionava por que era o único a usar óculos, descobri que o escritório é de maioria tetraolha. Nunca imaginei que um dia eu iria antecipar uma tendência.
Também soube que a diversidade de tatuagens da sala inclui desde o mascote do Iron Maiden até versos do Jão, passando por uma cruz enfeitada por expressão em latim. Barbas estão mais em alta do que eu imaginava. O mais disruptivo, porém, foi descobrir que meu chefe é adepto de brincos e piercings na orelha. Informações sobre quem me cerca todos os dias, que só eu não tinha.
E ter noção da aparência das pessoas pode ter uma utilidade muito prática. Queriam saber se eu conhecia o Paulo. Eu acreditava que sim. Mas, com um nome desses, como ter certeza? Era o careca, disse meu interlocutor. Pena eu não ter passado a mão na cabeça do Paulo para ter essa informação.
Por vezes, não saber o que está impresso no rosto da pessoa ao lado nos torna alienados a questões fundamentais. Em outra redação, trabalhei anos sem saber que a jornalista especializada em economia, na bancada ao lado, era negra —inventei para ela um rosto branco. Quando não temos a informação certa, usamos os preconceitos inconscientes que temos.
Nos últimos cinco anos, vem se difundindo a prática de fazer descrições da própria aparência, em especial em eventos de grandes empresas e do setor público. Também há pessoas tão engajadas que mal encontram um cego, abrem um sorriso de orelha a orelha e começam a se autodescrever. Às vezes até pegam nossas mãos para que a gente passe no rosto delas, o que é exagero quando ainda não há intimidade, mas resolveria meu problema com o Paulo.
Calma. O César Tralli não precisa passar os próximos 20 anos abrindo o Jornal Nacional com a descrição do penteado da noite. Para isso, bastaria o telejornal ter audiodescrição, como já acontece com as novelas. Porque estar bem informado também é saber como são as pessoas que estão nas notícias e nossas conversas.

