Das sete linhas antes operadas pela CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos), seis já foram concedidas à iniciativa privada, duas delas em 2022. A última que permanece estatal é a 10-turquesa. Todas continuam sofrendo com os problemas de sempre: lentidão, superlotação nos horários de pico e falhas elétricas. E a privatização não trouxe até agora melhorias ao sistema.

Mas fazia tempo que não se via algo comparável ao que aconteceu quinta-feira (23) na linha 12-safira, agora concedida à empresa Trivia Trens, que havia assumido a operação dois dias antes. Uma composição pegou fogo e milhares de paulistanos enfrentaram sérios transtornos. O problema foi tão grave que o governo prorrogou por 90 dias o início da concessão. É um sinal de que a privatização, às vezes, pode ser uma decisão temerária.

Em São Paulo —estado e município— hoje só se fala sobre conceder serviços e espaços públicos para a iniciativa privada sem que se possa entender com exatidão os motivos que existem por trás disso. Não há critérios seletivos.

Os governos defendem a entrega de seus equipamentos a empresas como algo vantajoso para a população, capaz de atrair investimentos e gerar retorno para os cofres públicos, mas não se aprofundam no assunto para analisar alguns efeitos colaterais.

Um caso exemplar é o da Sabesp, que aumentou tarifas e passou a receber mais reclamações. A privatização dos serviços de saneamento básico gerou problemas em várias partes do mundo e, em muitas cidades, como Paris e Berlim, eles foram reestatizados. Há várias experiências de fracasso. A maioria dos paulistas, segundo pesquisa Datafolha, não está de acordo com a mudança do destino de sua companhia de água e esgoto.

Outros alvos da fúria privatizadora dos governos locais são parques, praças e ambientes culturais. O que se vê nesses casos é um efeito de gentrificação, de afastamento dos mais pobres. As empresas que os assumem criam imediatamente espaços segregados para quem consegue pagar e inundam a paisagem de marcas de consumo.

Foi o que aconteceu no parque Ibirapuera e no Villa-Lobos. O da Água Branca segue na mesma toada. As áreas verdes podem até estar bem cuidadas, o mínimo que se espera, mas se transformaram em shoppings a céu aberto, e os preços dos produtos de consumo subiram muito. O vale do Anhangabaú virou palco de festas exclusivas cercadas por tapumes. A prefeitura ameaçou reestatizá-lo, principalmente por causa do barulho dos eventos que perturbam os moradores do centro.

Agora estão construindo um restaurante dentro do parque Trianon, na avenida Paulista, um dos últimos remanescentes de mata atlântica da cidade, privatizado em 2022. Para erguer o estabelecimento foram derrubadas quatro árvores. Tudo é muito repentino. Um lugar de contemplação é invadido pelo mundo dos negócios. As autoridades dizem que haverá vantagens para todos, mas não é bem assim.

A prefeitura quer também conceder a praça Roosevelt e alguns equipamentos do entorno, como os estacionamentos, para a iniciativa privada por duas décadas. A proposta foi colocada em consulta pública e envolve a venda dos chamados "naming rights". Mais uma vez, o que se teme é a restrição do uso popular e a mercantilização de um patrimônio urbanístico. Outra crítica é a transferência de obrigações públicas de zeladoria.

O último alvo da privatização opressora é o Memorial da América Latina, um lugar criado por Oscar Niemeyer e Darcy Ribeiro para ser um centro de integração, pesquisa e memória e que agora está ameaçado pelo governo estadual de virar uma área de exploração comercial. Essa conversão está sendo planejada sem diálogo e teme-se que limite a utilização dos espaços culturais pela população.