Eder Krausz nasceu no Brasil por uma dessas peripécias do acaso. Seu pai, o húngaro Elimir Krausz, resolveu bater bota pelo mundo depois que sua mãe e os irmãos menores morreram envenenados com cogumelos que colheram no campo.
Elimir percorreu vários países da Europa Oriental e, no Oriente Médio, escapou de ser queimado vivo durante um ataque no seu alojamento. Na Turquia, conheceu Malka Abramovitch e se apaixonou. Em 1926, quando a família dela decidiu vir para o Brasil, ele veio junto. Casaram-se em Erechim (RS) e lá tiveram três filhos.
Eder era o caçula. Com seis meses, mudou-se para São Paulo e cresceu em diferentes endereços do Bom Retiro e do Brás. Para chegar ao Clube de Regatas Tietê, do qual era sócio, atravessava o rio homônimo a nado.
Com 15 anos prestou concurso para o antigo Iapi, como contínuo. Depois foi aprovado em economia na FEA-USP e, anos mais tarde, prestou novo concurso para a Cesp, onde trabalhou com planejamento energético até se aposentar.
Ainda muito jovem, Eder entrou para o Habonim Dror, um movimento da juventude sionista-socialista. Anos mais tarde, militou na Polop. Foi preso e torturado durante a ditadura. Manteve-se sempre fiel aos princípios: no último dia 11, ficou três horas na avenida Paulista, na manifestação pró-Lula.
Nos anos 1960, numa excursão da USP para o Nordeste, conheceu a musicista e também militante da Polop Lydia Jardim Loes. Começaram a namorar na viagem. Eder e Lydia se casaram na Bolívia, porque ela era desquitada, e o divórcio só foi instituído no Brasil em 1977.
Ao se aposentar, para não ficar parado, Eder passou a trabalhar como perito da Justiça do Trabalho, fazendo cálculos. Para algumas ações coletivas, produzia laudos com mais de 2.000 folhas abarrotadas de contas, mas não usava Excel. Nem Word. Usava uma planilha e um editor de textos do antigo DOS. Era o jeito dele.
Ficou nessa atividade até os 85 anos, quando parou de vez. Então só se ocupava com a família, os amigos e os desconhecidos, que invariavelmente contagiava com uma conversa sagaz e bem-humorada.
Mandava livros para todo mundo e problemas de matemática para os netos, sobrinhos-netos e sobrinhos-bisnetos. Cada familiar recebia um clipping personalizado dos jornais do dia. Recortava a matéria, fotografava e mandava por WhatsApp. "Tio Eder deve ter lido todos os livros e jornais do mundo", disse uma sobrinha-neta, após sua partida.
Partida esta que, apesar de ocorrer aos 91 anos, deixou em perplexidade toda a gente, dada a sua disposição, lucidez e vontade de viver. Tinha passagens compradas para o Chile em novembro. Pretendia passar uns meses na Europa em 2027.
No último dia 20, sentiu-se indisposto em casa e morreu deitado no ombro do filho mais velho, no carro, a caminho do hospital. Viúvo de Lydia, deixou 2 filhos, 2 noras, 3 netas e 1 neto. E muita gente que, pelo convívio, se tornou sua fã.



