Os alertas de chuva intensa e vendavais emitidos esta semana levantam uma questão que vai além da meteorologia: a população sabe o que fazer quando recebe esses avisos?

Especialistas apontam que o sistema avançou nos últimos anos, mas que ainda é necessário aumentar as medidas de prevenção e o treinamento. Para eles, a redução dos estragos climáticos depende também da forma como os alertas são comunicados e da resposta da população.

Os eventos climáticos extremos desta semana deixaram mortos em São Paulo e no Rio de Janeiro e provocaram alagamentos, deslizamentos e danos em dezenas de municípios do Rio Grande do Sul.

Os avisos meteorológicos emitidos pelo Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia) seguem padrões definidos pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), utilizados também em outros países.

O meteorologista Willians Bini, da Metos Brasil, diz que esses avisos são apenas parte do processo e afirma que o país ainda precisa investir na preparação da população, especialmente de quem vive em áreas sujeitas a alagamentos e deslizamentos.

Conforme Bini, as cidades precisam desenvolver ações permanentes de orientação junto aos moradores. "Cada município sabe onde estão suas áreas de risco. Deveria haver um trabalho com essas comunidades para que realmente soubessem o que fazer quando recebessem determinado alerta", diz.

Receber uma mensagem no celular não é o suficibasta para reduzir o número de vítimas, afirma ele. "Precisa, sim, de treinamento, principalmente nas áreas de risco. Também deveriam existir campanhas das Defesas Civis. Às vezes o SMS traz uma recomendação básica, como procurar abrigo, mas acho isso muito superficial."

Para Bini, a prevenção depende de três etapas integradas: previsão meteorológica, emissão dos alertas e resposta da população. "Não adianta ter uma boa previsão se essa informação não chega para a população em forma de alerta. E também não adianta só alertar se as pessoas não sabem o que fazer."

Segundo o meteorologista Francisco de Assis, os alertas indicam o nível de risco e os fenômenos esperados de maneira satisfatória. Mas, por serem elaborados para áreas amplas, ainda têm limitações para apontar exatamente onde os impactos mais severos ocorrerão.

Em São Paulo, por exemplo, muitas vezes os alertas incluem uma região inteira da cidade, ou até mesmo o município inteiro.

Assis explica que tempestades severas costumam atingir áreas mais restritas. "Às vezes acontece o temporal em uma região, mas em outra região não ocorre. Temporal não pega muitas regiões ao mesmo tempo", diz.

Na avaliação dele, uma evolução possível seria tornar os alertas mais específicos para cada tipo de fenômeno e para as áreas com maior probabilidade de serem atingidas.

O especialista também diz que o aumento dos avisos pode ter o efeito inverso ao esperado e deixar a população acomodada. "Elas [as pessoas] passam a achar que sempre tem alerta. Quando o fenômeno ocorre apenas em uma parte da área prevista ou não acontece com a intensidade esperada, isso também pode diminuir a credibilidade dos avisos", afirma.

Independente disso, ele considera que além dos alertas, cabe à população adotar medidas de autoproteção.

"Quando a Defesa Civil emite o alerta, de acordo com a previsão meteorológica do Inmet, a população daquela região tem que se prevenir. Se há condição de temporal, a população precisa procurar um local de abrigo mais seguro", afirma.

The report reached out to Inmet to comment on the functioning of meteorological alerts and the criticisms raised by experts, but received no response by the time of publication.