Os povos indígenas da Amazônia veem com preocupação o avanço da candidatura à Presidência de Flávio Bolsonaro (PL). O senador promete seguir os passos de seu pai, Jair Bolsonaro, que desmontou a fiscalização ambiental e incentivou invasões a áreas protegidas, acelerando a destruição da maior floresta tropical do planeta.
Inara Waty, líder do povo Sateré-Mawé, diz que o nome Bolsonaro "significa, acima de tudo, medo". "Representa tudo o que há de ruim para nós", acrescenta, com os olhos cheios de lágrimas ao recordar o governo do ex-presidente.
Jair Bolsonaro governou o país mais biodiverso do mundo entre 2019 e 2022, período marcado por recordes de desmatamento na Amazônia e pela ausência completa de novas demarcações de terras indígenas. Seu filho, que lidera pesquisas para o segundo turno contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, afirma que seu eventual governo será um "Bolsonaro 2.0".
"A melhor forma de abordar a questão ambiental foi o que fizemos durante o governo do presidente Bolsonaro", disse Flavio ao ser questionado sobre o assunto em uma entrevista. Para o candidato, seu pai, hoje condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe, "lutou" contra uma "agenda ambiental radical".
Assim como Jair Bolsonaro, Flávio conta com o apoio dos grandes produtores rurais e pecuaristas, em constante conflito fundiário com as comunidades indígenas, especialmente na Amazônia. No primeiro turno, seus aliados foram eleitos para governar sete dos nove estados amazônicos.
"Eles querem terra para lavoura de soja, para criar o gado deles. Nós queremos terra para sobreviver, para plantar; queremos a terra para cuidar dela", afirma Inara Waty. Por isso, ela ressalta que estas eleições serão uma "questão de vida" para os indígenas.
Em um vídeo recente, mulheres do povo Yanomami apareceram com desenhos pintados no rosto e no corpo para se opor a Flávio Bolsonaro. Seu território é vítima constante de invasões de garimpeiros ilegais, de quem acusam o candidato à presidência de ser próximo.
"Se a floresta for destruída, como vamos viver?", questionaram aos gritos. "Não queremos que voltem a nos matar!"
Sob o mandato de Jair Bolsonaro, os yanomamis sofreram com a presença de milhares de garimpeiros em suas terras, que culminaram em uma crise humanitária.
Os temores pela repetição do que já foi feito no passado se somam a novas ameaças. Fazendeiros dizem que vão invadir territórios indígenas na Amazônia caso Flávio Bolsonaro vença as eleições de 2026, segundo áudios e relatos reunidos pela Folha.
Os indícios de invasões a territórios chegaram às autoridades do governo federal, que também apuram se a onda crescente de incêndios florestais dentro de um território foi causada propositalmente por fazendeiros.
Em seu plano de governo, seu filho propõe tratar o meio ambiente como um "ativo estratégico". O programa inclui a promessa de acabar com o desmatamento ilegal até 2029, retomando o compromisso de seu pai de eliminá-lo, embora isso nunca tenha se concretizado —muito pelo contrário.
"[Essa meta] é incompatível com suas políticas ambientais", avalia Adriana Ramos, da ONG Instituto Socioambiental.
A campanha de Flávio Bolsonaro não respondeu às perguntas da AFP sobre os detalhes de seu plano ambiental nem sobre os temores manifestados por comunidades indígenas e ambientalistas.
Coordenadora de Políticas Públicas do Observatório do Clima, Suely Araújo diz que a gestão de Jair Bolsonaro foi uma "preocupação diária". Ao longo dos quatro anos em que esteve no poder, a Amazônia perdeu cerca de 11,4 mil km² de floresta por ano, quase 60% a mais do que nos quatro anos anteriores, segundo dados oficiais.
O governo Lula reduziu esse número pela metade em 2025 e retomou a demarcação de terras indígenas. Apesar isso, enfrenta críticas de ambientalistas por incentivar a exploração de petróleo na costa da Amazônia.
"Durante o governo de Jair Bolsonaro, essa corrida de destruição da floresta estava apenas começando e agora, com Flávio, pode ser ainda pior", diz Araújo.
