Pedro Nunes ingressou na Universidade de Salamanca aos 16 anos, iniciando uma carreira brilhante como cientista e inventor que faria dele o primeiro professor titular de matemática na Universidade de Coimbra (em 1544) e mestre de diversos príncipes da família real portuguesa incluindo, provavelmente, o futuro (e trágico) rei d. Sebastião.
Fluente em latim e espanhol, além do português materno, escreveu diversos livros nessas três línguas ao longo de sua vida. Sua primeira obra, "Tratado da Esfera", publicada em Lisboa em 1537, reúne traduções para o português e textos originais seus sobre navegação.
Trinta anos depois publicou em espanhol na cidade de Antuérpia o "Libro de Algebra em Arithmetica y Geometria", seu grande trabalho matemático, uma obra bastante avançada para o seu tempo, onde discute a resolução recente da equação cúbica e apresenta um tratamento sistemático dos números negativos.
No mesmo ano, publicou em Lisboa "De Crepusculis", estudo matemático do céu noturno escrito em latim, uma de suas obras mais originais. Nele, divulga sua invenção mais famosa, chamada nônio, um sistema de duas réguas móveis justapostas com graduações ligeiramente diferentes que permitia um grande aumento da precisão da medida. Sabemos que o nônio foi amplamente usado na época: um dos usuários foi o grande astrônomo dinamarquês Tycho Brahe, que chegou a construir dois para incorporar a seus astrolábios.
A aposentadoria da Universidade de Coimbra foi dolorosa. Divergências sobre a contagem de tempo de serviço e sobre o montante da pensão só foram resolvidas por intervenção direta real e, mesmo assim, a universidade nunca cumpriu direito aquilo que ficou determinado, e nem sequer o consultou na escolha do sucessor. Atingido também por dissabores familiares, que já comentei aqui, acabou morrendo no isolamento. Mas não no esquecimento: sua contribuição científica foi lembrada em praticamente todos os textos sobre matemática publicados na Europa nos séculos 16 e 17.
Mas o grande mistério de Pedro Nunes diz respeito às suas origens. Tirando o fato de que nasceu em 1502 na cidade de Alcácer do Sal, não sabemos nada sobre os anos que antecederam a chegada à Universidade de Salamanca, inclusive sobre quem foram seus antepassados. Em "Pedro Nunes: em busca de suas origens" a historiadora portuguesa Maria Teresa Lopes Pereira sustenta que o silêncio do próprio Pedro Nunes a respeito de seus antecedentes familiares foi intencional.
Seis anos antes de seu nascimento, em 1496, o rei d. Manuel assinara o Édito da Conversão que obrigava todo judeu que quisesse permanecer no reino (e conservar sua propriedade...) a se converter ao catolicismo. Isso criara a categoria dos cristãos-novos, judeus cuja conversão forçada sempre foi motivo de ceticismo, plenamente justificado em muitos casos, aliás. Embora teoricamente estivessem em pé de igualdade com os "cristãos-velhos", os conversos foram sistematicamente discriminados.
Sabemos que Pedro Nunes sempre se apresentou publicamente como católico, e certamente nunca foi perseguido. Mas também é certo que, caso tenha sido cristão novo, como propõe a historiadora, teria todo interesse em ocultar esse fato. E é sabido que dois de seus netos foram interrogados e encarcerados pela Inquisição sob a acusação de judaísmo, embora tenham sido libertados: nas suas defesas, usaram a fama e as supostas boas credenciais católicas do avô.



