A psicanálise começa com o tratamento de mulheres cujo adoecimento deixava perplexos os médicos europeus do final do século 19. Freud se deu ao trabalho de escutá-las, enquanto seus colegas ridicularizavam os sintomas histéricos que não compreendiam.
Depois de décadas de teorização, termos como inconsciente, negação e recalque fazem parte do léxico geral. Mesmo assim, o pai da psicanálise confessou, ao final de sua vida, não ter compreendido a psique feminina.
Aquela que nos dá à luz, que coloca nosso corpo no mundo dos vivos e que, frequentemente, nos introduz na linguagem, acaba por ser alvo de fantasias e expectativas irrealistas. Ocorre que o corpo que reproduz outros corpos é estranho até para si mesmo. Mulheres não sabem mais que os outros sobre os mistérios da criação.
Espantam-se com a menstruação, com a concepção, com o parto e com a amamentação tanto ou mais que aqueles que não vivem essas experiências. No máximo, se resignam, se acostumam ou se encantam.
Domar tanto poder, até o de produzir o diferente de si, depende de controlar-lhes o corpo, prática observada em quase todas as culturas humanas, como diz a antropóloga Françoise Héritier. Subjugar e idolatrar, enaltecer e cercear são formas paradoxais de lidar com o assombro de não sabermos de onde viemos e para onde vamos e de utilizarmos o corpo da mulher como pista falsa. Um exemplo acabado disso é encontrado no tétrico manual de inquisidores "Malleus Maleficarum", de 1487, no qual se vê a busca pelo demônio nas partes íntimas da mulher.
O corpo interditado ao monge pudico, sob o pretexto da fé, tornava-se seu campo de exame obsessivo. Somos todos um tanto premidos pela mesma tentação de buscar naquelas que nos puseram no mundo uma chave para o sentido da nossa existência. O ressentimento por descobrir que as detentoras de tamanho poder nada sabem sobre ele se revela como ódio ao feminino.
Como deusas insolentes que criam o mundo e se eximem de responder pelo seu feito, as mulheres nos lembram que somos seres desamparados diante da absoluta falta de respostas sobre quem somos.
Freud se frustrou ao tentar mapear o desejo feminino, mas se esqueceu de que tampouco se pode saber sobre o desejo masculino. A pergunta sobre o desejo se coloca para todos os humanos, uma vez que somos mamíferos condenados à autoconsciência e a todas as mazelas que dela decorrem. Não haveria por que supor que com a mulher seria diferente.
O desejo é o truque que usamos para permanecer ligados à vida, mesmo sabendo que ela acaba. É porque temos essa espada sobre a cabeça que nos resta almejar realizações que nos satisfaçam parcialmente e nos mantenham no jogo.
O ódio às mulheres, essas deusas decaídas e mundanas, que não nos entregam a resposta mais fundamental, é tema central da psicanálise. É importante saber como ele se apresenta em cada época e circunstância, mapeá-lo e enfrentá-lo em todas as suas manifestações. Na dúvida sobre se um gesto é misógino, vale inverter o gênero e ver no que dá.
Nesta eleição, por exemplo, que tal questionarmos o voto masculino em vez do feminino, com base no fato inconteste de que os homens não têm feito boas escolhas para a humanidade em geral?
