A Unicamp nasceu em barracos de madeira e metal, erguidos às pressas num antigo canavial de Campinas. Seis décadas depois, tornou-se a segunda maior universidade do país. E agora, aos 60 anos, quer crescer de novo. O problema, porém, não são só os prédios, e sim o orçamento.

A universidade, oficialmente fundada em 5 de outubro de 1966, projeta expandir seus campi no interior paulista, com planos que incluem uma nova Faculdade de Medicina em Piracicaba e uma Faculdade de Direito em Campinas. Mas o crescimento está amarrado à criação de uma autarquia própria para sua área de saúde, que, em 2025, foi responsável por R$ 1,1 bilhão do orçamento anual da instituição.

A proposta foi aprovada pelo Consu (Conselho Universitário) em dezembro de 2025, por 41 votos a 34, sob protestos de servidores e estudantes, e agora depende do aval do governo do estado. Pelo projeto, a gestão do complexo de saúde —que inclui o Hospital de Clínicas— passaria a uma autarquia vinculada à Secretaria Estadual de Saúde, mantendo o atendimento 100% pelo SUS.

Para o reitor Paulo Cesar Montagner, o Cesinha, trata-se de "um projeto de Estado", que deve atravessar sua gestão e as de reitores futuros. Segundo ele, a saúde consumiu em 2025 cerca de 26% do orçamento total da instituição. "Um investimento valiosíssimo, mas isso vai pressionando o nosso orçamento para poder projetar crescimento de futuro", diz.

A Unicamp é a única entre as três universidades estaduais presenciais paulistas —ao lado de USP e Unesp— que ainda mantém sua área de saúde dentro do próprio orçamento.

Montagner rebate as críticas de que a autarquização seria um primeiro passo rumo à privatização do hospital. "Eu me incomodo quando algumas pessoas falam que nós estamos privatizando a universidade, essa é uma falsa relação", afirma.

Para custear os planos de expansão, a Unicamp, assim como USP e Unesp, depende hoje de uma fatia fixa do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços), arrecadação que as três universidades dividem desde 1989. Hoje em 9,57%, foi consolidada em 1995 e, segundo Montagner, funcionou como uma espécie de motor de crescimento.

Esse modelo, porém, está prestes a mudar com a Reforma Tributária. Promulgada em 2023, ela vai fundir o ICMS ao ISS (Imposto Sobre Serviços) numa nova cobrança, o IBS (Imposto sobre Bens e Serviços).

Segundo Montagner, o colegiado já apresentou ao governo um estudo para garantir que o percentual histórico seja mantido na nova regra.

Procurada pela Folha, a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação afirmou que acompanha o grupo de trabalho responsável por analisar alternativas de financiamento e os impactos da reforma tributária sobre as universidades estaduais.

Segundo a pasta, logo após as eleições, será apresentado ao governo um resumo executivo sobre o período de transição do novo sistema tributário, que será submetido à avaliação e deliberação.

A Secretaria da Fazenda e Planejamento, que também acompanha as discussões, afirma que ainda não há elementos suficientes para calcular com precisão os efeitos da mudança sobre a receita estadual.

Pela reforma, o IBS substituirá integralmente o ICMS em 2033, com a transição começando em 2029.

O governo paulista afirma ainda manter o compromisso com a autonomia orçamentária e financeira das universidades estaduais.

A transição chega em um momento já apertado para a Unicamp. Segundo Montagner, 2026 tem sido marcado por uma "frustração de arrecadação" —ou seja, o ICMS arrecadado ficou abaixo do esperado, reduzindo a receita repassada à universidade.

A resposta da universidade a esse cenário, no entanto, não foi frear, mas expandir. A criação de cursos —direito, relações internacionais, inteligência artificial e ciência de dados— avançou mesmo em meio a esse momento de incertezas, o que gerou discussões entre conselheiros. Durante a votação das novas graduações, parte da comunidade universitária defendeu esperar por uma conjuntura mais estável.

Além de Campinas, a universidade tem hoje outros campi com graduação, em Limeira e Piracicaba. Em Limeira, no entanto, persiste entre parte da comunidade acadêmica o sentimento de estar numa "Unicamp B", ou seja, um campus com proporção mais apertada de alunos por professor e infraestrutura física mais limitada, além da falta de uma moradia estudantil própria.

Sobre a moradia estudantil, o reitor pondera que o tema não é um assunto fácil. Segundo o reitor, viabilizar um projeto desse porte exige a compra de terrenos e recursos financeiros consideráveis, além de um debate com a comunidade universitária e local.

Na cidade, existem dois institutos, a FCA (Faculdade de Ciências Aplicadas) e a FT (Faculdade de Tecnologia). Ambas lideram o número de estudantes matriculados na graduação da Unicamp, com 2.524 e 1.395 alunos, respectivamente, de acordo com o anuário estatístico de 2026.

O reitor afirma que a universidade criou um grupo de trabalho para começar a estruturar e planejar projetos para o campus de Limeira. Isso inclui o lançamento do curso de inteligência artificial e ciência de dados e o de relações internacionais, que já figuram entre os 20 mais procurados do vestibular 2027, e um investimento de R$ 140 milhões em infraestrutura, que vai unificar espaços da Faculdade de Tecnologia e da Faculdade de Ciências Aplicadas e criar um centro de pesquisa e práticas em saúde e esportes.

Em Piracicaba, a universidade projeta a criação de uma Faculdade de Medicina e um hub de inovação em saúde vinculado à Faculdade de Odontologia.

Nem todos, porém, apoiam essa estratégia de expansão via novos cursos em detrimento de investimentos nos já existentes. Durante a votação das novas graduações, docentes cobraram melhorias na infraestrutura de prédios mais antigos.

Professores e alunos do IA (Instituto de Artes) protestaram com cartazes que diziam que "a IA [inteligência artificial] furou a fila do IA [Instituto de Artes]", uma crítica à demora na implementação da licenciatura em teatro, aprovada pelo Conselho Universitário em 2019, mas que nunca chegou a sair do papel. A graduação acabou confirmada dentro do pacote atual de expansão.

Além disso, o instituto segue há 40 anos alojado nas instalações provisórias do Pavartes, enquanto a nova Faculdade de Direito já nasce com prédio próprio.

"Nós temos muito orgulho dos nossos cursos de artes, e os alunos não estão errados nessa análise", afirma. Ele cita como compromisso a conclusão de obras pendentes, como o próprio Pavartes e o Prédio da Música.

Para o futuro, Montagner defende que a universidade precisa aliar sua tradição de impacto socioeconômico regional a uma resposta mais decisiva à crise climática. Questionado sobre como gostaria que a Unicamp fosse vista daqui a 40 anos, na celebração de seu centenário, o reitor recorre a um tom mais pessoal.

"Que de fato a gente olhasse para trás, para esse momento, para os nossos planos, e a gente visse um crescimento que de fato auxiliou o país em cultura, em desenvolvimento sustentável, na formação de uma geração equilibrada, de um país mais soberano, onde tenha apoiado com muita força a escola pública", diz.

RAIO-X DA UNICAMP

- Fundação: 1966

- 37.874 alunos (graduação e pós)

- 1.770 docentes em atividade

- 77 novos pedidos de patentes em 2025, totalizando 1.374 patentes vigentes

- Posição no RUF (Ranking Universitário Folha): 2ª melhor universidade

- Posição no THE (Times Higher Education): 2º do país, 326º-350º no ranking global (USP está em 141º)

Números dos campi

Campinas – Barão Geraldo | Campus principal

- Graduações: 52

- Alunos de graduação: 15.528

Limeira | Campi 1 e 2

- Graduações: 14

- Alunos de graduação: 3.919

Piracicaba

- Graduações: 1 (Odontologia)

- Alunos de graduação: 389

Campinas | Cotuca

- Abriga: Colégio Técnico de Campinas (Cotuca)

Paulínia

- Abriga: Centro Pluridisciplinar de Pesquisas Químicas, Biológicas e Agrícolas (CPQBA)

Fontes: Anuário Estatístico 2026 (base 2025), RUF 2025 e THE 2027