Um grupo de operadores financeiros que inclui condenados na Operação Lava Jato criou uma rede de serviços clandestinos que serviu à lavagem de dinheiro de integrantes do PCC (Primeiro Comando da Capital), afirmam promotores do Ministério Público de São Paulo.

Eles apresentaram denúncia na segunda-feira (14) contra 19 suspeitos pelos crimes de lavagem de dinheiro e organização criminosa. A Justiça deve analisar e decidir se abre uma ação penal contra os envolvidos. Não há prazo para isso ocorrer.

A ação é resultado das operações Janus e Bazaar, que investigaram a movimentação de valores ilícitos, participação de criminosos nos chamados tribunais do crime na cidade de São Paulo e um suposto esquema de corrupção na Polícia Civil paulista.

Os promotores do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) relatam a montagem de uma "central de serviços financeiros ilícitos —ou verdadeiro 'Banco do Crime' —colocada à disposição de integrantes e colaboradores do PCC para a ocultação e a dissimulação da origem, da natureza e da propriedade de bens e valores provenientes do tráfico de drogas e de outros crimes".

A investigação aponta que ao menos dois integrantes do PCC —Leonardo Monteiro Moja, o Léo do Moinho, e Alexandre Salles Brito, o Buiú— teriam usado os serviços financeiros clandestinos.

Além deles, a Promotoria também aponta que colaboradores da facção (que não são filiados como membros, mas mantêm negócios com eles) também se tornaram clientes desses serviços. Entre eles estão um suspeito de contribuir para o tráfico internacional de cocaína e um operador de criptomoedas.

Contas bancárias teriam sido indicadas por Léo para um dos prestadores do serviço de lavagem financeira, indicam mensagens interceptadas pela investigação, e vários depósitos na casa de dezenas de milhares de reais teriam sido realizados.

Segundo o Gaeco, isso serviu para esconder a relação do dinheiro com o tráfico de drogas comandado por Léo do Moinho.

O advogado Rodrigo Antunes Benetti, que representa Léo, disse que "restará demonstrada a inocência do senhor Leonardo". "Nenhuma das acusações promovidas em seu desfavor desde a sua prisão em 6 de agosto de 2024 resultou em condenação, justamente porque foi reconhecidamente declarado inocente", afirmou.

A defesa de Brito não foi identificada.

O esquema teria usado várias empresas fictícias e contas bancárias de laranjas, que não teriam capacidade econômica compatível com os valores movimentados.

Para oferecer o serviço clandestino, segundo a denúncia, operadores financeiros se aproveitaram de "brechas de fiscalização, regulação" e envolveram-se em "corrupção de gerentes bancários e agentes públicos".

A denúncia afirma que os denunciados desenvolviam há anos formas de ocultar a circulação de dinheiro, e que gradualmente esses serviços passaram a ser oferecidos a integrantes do PCC.

Entre os denunciados estão Leonardo Meirelles, Meire Bonfim Poza e Raphael Flores Rodrigues, —os últimos dois condenados na Lava Jato. A Meirelles é atribuído um papel central na estruturação da rede de serviços financeiros clandestinos —chamada de Akron.

A investigação encontrou mensagens indicando que ele e seus sócios procuraram integrantes associados ao PCC para oferecer serviços de "blindagem tributária" e ocultação de movimentações financeiras.

Apontado como doleiro, ele também teria sido responsável por pagamentos de propina a policiais civis. Ele tem um mandado de prisão pendente relacionado a um processo por associação para o tráfico.

Chegou a ser preso e acusado de emprestar suas empresas para o doleiro Alberto Youssef fazer remessas de até R$ 140 milhões ao exterior. Deixou a prisão após confessar os crimes. A reportagem não conseguiu identificar a defesa dele nem de Poza.

Um dos exemplos de oferta desses serviços foi encontrado em mensagens de celular que teriam sido enviadas por Cléber Azevedo dos Santos a outro suspeito, no qual ele diz que "nosso banco digital já está funcionando" e acrescenta que tratava-se de um "banco pra blindagem tributária", que "não pega Coaf [Conselho de Controle de Atividade Financeira], Banco Central".

O advogado José Antônio Chiaradia afirmou que "as alegações atribuídas a Cleber não passam de ilações, sem qualquer fundamento ou provas".

Os promotores do Gaeco pedem que eles paguem indenização de R$ 10 milhões, a ser destinada aos fundos públicos.

Conversas envolvendo PMs são enviadas à Justiça Militar

Durante a investigação, foram encontradas conversas que mencionam coronéis da Polícia Militar de São Paulo, entre eles o ex-comandante-geral José Augusto Coutinho e o oficial da reserva Luiz Carlos Pereira Martins.

Pereira Martins fazia parte de um grupo de WhatsApp com suspeitos de lavagem de dinheiro, e as mensagens teriam demonstrado relações de intimidade entre eles, inclusive planejando viagens em grupo a uma colônia de férias. A defesa de Pereira Martins não foi identificada.

Já Coutinho é mencionado numa conversa que envolve um operador financeiro que presta serviços de "troca de TED por dinheiro vivo" e teria conexões com integrantes do PCC.

Documento enviado pelos promotores à Justiça informa que cópia integral do processo foi enviada à Justiça Militar para investigar possíveis crimes cometidos pelos coronéis. Os oficiais da PM não foram investigados pelo Gaeco.

Em julho, quando essas informações se tornaram públicas, a defesa de Coutinho afirmou que ele exerceu suas funções na PM com "integridade e correção" e afirmou que "está certa de que, no curso do procedimento, será demonstrada a inexistência de qualquer envolvimento de sua parte".