Não se sabe ao certo como o apelido Baitu pegou. Dizem ter sido após alguém gritar "vai tu" para o menino bom de bola. Nascia ali a forma como seria chamado um dos zagueiros mais importantes do Paulista de Jundiaí (SP), na virada da década de 1960 para a de 1970.

Nivaldo Beisegel, o Baitu, era criança na época em que a cidade do interior de São Paulo tinha rapadões por todos os lados. Ele costumava dizer que nem prego furava as cascas formadas nos seus pés de tanto jogar bola descalço nos campinhos de terra da Vila Rio Branco, bairro onde morava.

Não demorou para se firmar no futebol de várzea da cidade. Até Pedrão, goleiro que jogava algumas dessas partidas, ficar impressionado com o becão que não deixava a bola passar. Ele o levou para o time amador do Paulista.

Campeão do estado em 1967, ganhou uma vaga na equipe profissional. Vinha uma das viradas na vida do jovem, na época com 22 anos.

Com formação no Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial), assim como o pai, trabalhava na Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Dividia o tempo entre o futebol e o emprego.

Com a proposta para jogar no time profissional, se licenciou da ferrovia.

O jogador estava no grupo que foi campeão da segunda divisão e conseguiu acesso à elite do Campeonato Paulista, um dos momentos mais importantes da centenária história do Galo do Japi, como o clube é conhecido.

Em 1969, durante uma partida contra o Santos, Baitu estava no banco de reservas quando o lateral-esquerdo Nonô se machucou. Apesar de ser zagueiro, foi ele quem o técnico Olten Ayres de Abreu escolheu para entrar em campo. Coube a ele marcar até Pelé, entre outros craques. A equipe santista venceu de virada por 2 a 1, mas teve trabalho.

"Fomos a São Paulo e a Santos tentar achar a fita dessa partida, o grande jogo da vida do meu pai, mas nunca encontramos a gravação", conta o filho Marlon Roberto Beisegel, 47.

A carreira do zagueiro não foi longa. O clube enfrentava dificuldades financeiras e atrasava salários. Em 1973 aceitou o convite para trabalhar numa indústria de equipamentos elétricos —na época era comum empresas contratarem jogadores para também atuarem por seus times.

Trabalhou no grupo até se aposentar. Com a camisa da firma, chegou a ser campeão de um torneio, vencendo o próprio Paulista na final.

Anos depois de ter pendurado as chuteiras, ainda era reconhecido nas ruas por torcedores.

Fora dos gramados, sempre teve muito apego à família. Foi casado por quase 60 anos com Maria Inês, que conheceu quando estava no quartel e só pediu a moça em namoro ao pai dela após dar baixa no serviço militar.

Com pouco estudo, seu maior orgulho era ter conseguido formar os quatro filhos professores.

Fez muitos trabalhos voluntários e atuou como conselheiro de um posto de saúde na aposentadoria. "Tinha um coração enorme", diz o filho.

Apesar de seu frágil estado de saúde, fazia planos de votar no primeiro turno da eleição presidencial deste ano. Não conseguiu.

Baitu morreu em 5 de outubro, dia seguinte à votação, de complicações de um câncer de próstata.

Deixou a mulher Maria Inês, os filhos Mônica, Magda, Marlon e Mariane, e cinco netos.