Às vésperas do primeiro turno, a eleição que deveria discutir contas públicas, segurança e saúde está ocupada com uma santa. Primeiro, a campanha foi engolida pela briga entre ministros do STF —que seguem na defesa de seus interesses. Agora, pela mentira de que Flávio Bolsonaro quer tirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira. A "prova" é um projeto de um deputado, arquivado em 2008. Em 2022, inventaram que Jair Bolsonaro acabaria com o feriado de 12 de outubro. Flávio correu para desmentir. O mesmo Flávio que, na mesma eleição, foi multado pelo TSE por espalhar que Lula fecharia templos e perseguiria cristãos.

Quem acha que a baixaria nasceu no grupo do WhatsApp precisa ler história. A desonestidade eleitoral é analógica. Em 1945, o brigadeiro Eduardo Gomes disse dispensar o voto da "malta de desocupados". Um adversário distorceu a fala e alardeou que ele odiava trabalhadores. A mentira colou e garantiu a eleição do adversário Eurico Gaspar Dutra.

Em 1955, a Tribuna da Imprensa, de Carlos Lacerda, publicou a Carta Brandi, que ligava Jango a Perón e ao contrabando de armas para sindicatos e trabalhadores. Era forjada e não impediu a vitória da chapa que ele formava com JK. Em 1989, Collor dizia que Lula bloquearia a poupança. Na véspera do segundo turno, a polícia enfiou camisetas do PT nos sequestradores de Abílio Diniz. Collor venceu e ele mesmo confiscou o dinheiro.

Em 2010, correntes de e-mail garantiam que Dilma disse que "nem Jesus" tiraria sua vitória e a disputa virou guerra santa, com Serra rezando em Aparecida. Em 2014, a propaganda do PT mostrava a comida sumindo do prato se Marina vencesse. Em 2018, vieram a mamadeira de piroca e o kit gay da campanha de Bolsonaro.

Fake news define eleição? Não é bem assim. A mentira só viraliza porque confirma medos que o eleitor já tem: do comunismo, do elitismo, do confisco, do inimigo da fé. O que vence é a narrativa, não o fato. Em 2026, os dois lados faturam com a mentira. Lula disse não saber se o caso da santa era falso. Flávio comparou o caso à facada no pai. Santa paciência.