O colapso do topo de uma montanha que matou mais de 1.300 pessoas e deixou cerca de 6.000 desaparecidos na fronteira entre o Nepal e a China em agosto foi uma crise combinada de eventos climáticos e geológicos. O aquecimento global piorou a maior parte desses eventos, segundo a primeira análise científica a se debruçar sobre o desastre.

Parte da geleira e rochas de uma saliência se desprenderam da montanha Langtang Lirung no último dia 26. O gelo rapidamente se transformou em água, inundando o vale do rio Lendi e varrendo comunidades. "É importante ressaltar que não foi um único evento desencadeador", afirma Walter Immerzeel, professor da Universidade de Utrecht, que dirige um posto de pesquisa observacional na região.

"A falha ocorreu a uma altitude de cerca de 5.150 metros, e houve vários processos atuando em conjunto ao longo de escalas de tempo que variaram de anos a décadas, em vez de um único fator agindo isoladamente. Isso faz com que a atribuição climática direta também seja um grande desafio."

Immerzeel é um dos autores do estudo, publicado nesta quinta-feira (17) pelo WWA (World Weather Attribution). Em geral, o grupo, capitaneado por cientistas do Imperial College, de Londres, procura dimensionar a responsabilidade da mudança climática na ocorrência de eventos extremos. Desta vez, a análise ganhou nova dimensão, segundo Friederike Otto, líder da iniciativa.

"Convidamos glaciologistas e outros especialistas em regiões montanhosas para reunir em um único lugar o que sabemos até o momento, incluindo novas análises sobre o ocorrido", conta a professora do Imperial College. "Em segundo lugar, buscamos identificar os fatores que levaram ao desastre e o papel das mudanças climáticas sobre eles."

Em alguns casos, papel preponderante, a começar por décadas de aquecimento atmosférico causado principalmente pela queima de combustíveis fósseis. Temperaturas mais altas não só derreteram a geleira, como elevaram a linha de congelamento da montanha, a isoterma de zero grau, em cerca de 100 metros de altitude por década.

Além do recuo da geleira, estimado em 300 metros de 2010 a 2026, houve degelo do permafrost (tipo de solo congelado) dentro das fraturas rochosas, tornando instáveis as paredes no alto das montanhas.

"É um fator importante. O deslizamento ocorreu em uma zona de transição, onde o permafrost é particularmente sensível ao aquecimento e ao degelo das fraturas do leito rochoso. Isso reduz a resistência da rocha e permite que mais água penetre na encosta", explica Immerzeel.

Como já observado por outros especialistas, a temperatura na região foi alta durante os meses de julho e agosto, próxima dos 5°C, um recorde em 55 anos de registros. Em um dos poucos itens em que os modelos climáticos puderam ser usados na avaliação, o WWA estimou que a região experimentou no período um aquecimento de cerca de 1,5°C em relação ao período pré-industrial.

No ano, o peso da crise climática naquela cadeia montanhosa específica chega a 2°C de aquecimento.

Para completar esse quadro de fragilidade, o estudo pontua que um grande terremoto ocorrido em 2015 na região pode ter tornado a encosta ainda mais propensa ao desmoronamento.

"Levando em conta todos esses pontos, concluímos que se tratava de uma encosta geologicamente vulnerável, desestabilizada ainda mais pelo recuo da geleira, pelo degelo do permafrost, pela água de degelo em excesso e pelo calor excepcional no período", resume Immerzeel.

Embora o Nepal disponha de sistemas de alerta precoce e planos de ação para desastres, a magnitude da tragédia evidenciou os limites da adaptação às mudanças climáticas.

O estudo observa que, "em um contexto de alta montanha, onde áreas habitáveis são limitadas, a população cresce e a atividade econômica depende dos rios, seria difícil do ponto de vista social, econômico e político, eliminar ou mesmo reduzir substancialmente a exposição ao risco".

O governo nepalês solicitou e já teve aprovado pela ONU acesso a US$ 20 milhões (R$ 98 milhões) do chamado de Fundo de Resposta a Perdas e Danos, uma fração do que o país precisará para se recuperar do desastre.

Esse seria, no entanto, o primeiro grande teste prático do recurso, que enfrenta problemas de financiamento e já represa cerca de US$ 2,8 bilhões (R$ 14,3 bilhões) em pedidos de pequenos países.

Balendra Shah, primeiro-ministro nepalês, planeja levar o assunto à Assembleia Geral da ONU, na próxima semana.