Na segunda metade do século 19 o rio Anhangabaú começou a enfrentar um sério problema ambiental. O matadouro da baixada do Humaitá, entre os bairros Liberdade e Bela Vista, funcionava desde a década de 1850 próximo de um de seus afluentes, o córrego Itororó, hoje enterrado embaixo da avenida 23 de Maio. Vísceras dos animais abatidos e grandes quantidades de sangue deixavam suas águas vermelhas e alcançavam o centro de São Paulo.

Diante dos riscos que a situação representava para a saúde pública, em 1887 foi instalado um novo matadouro bem maior em uma região periférica chamada de Rincão do Sapateiro, no bairro que ficaria conhecido como Vila Mariana, na zona sul da cidade. É no mesmo lugar onde se localiza atualmente a sede da Cinemateca Brasileira.

Para abrigar o matadouro, três galpões paralelos com tijolos aparentes e grandes arcos foram construídos. Também foi instalada uma ferrovia para transportar o gado até o local. Quem coordenou o projeto foi o engenheiro Alberto Kuhlmann, dono da empresa Carris de Ferro e marido de Mariana Mato Grosso. O nome da mulher batizava uma estação de trem e teria inspirado a denominação do bairro.

O projeto de Kuhlmann envolvia essa linha ferroviária auxiliar que partia da estação Vergueiro, próxima do atual metrô São Joaquim. O gado chegava de trem, mas também da região do parque do Ibirapuera, então um grande pasto.

O novo matadouro tinha capacidade de produzir 14 mil quilos de carne por dia. Os resíduos dos abates eram lançados no córrego do Sapateiro, situado nas proximidades e duramente afetado pela poluição, como tinha sido o Itororó.

Na época, São Paulo tinha cerca de 65 mil habitantes e começava a receber grandes levas de imigrantes, principalmente italianos. A população crescia velozmente e, na mesma proporção, o consumo de alimentos.

A presença do matadouro causou uma grande transformação na região, onde só havia chácaras. Logo começaram os loteamentos, e a mesma Carris de Ferro instalou trilhos de trens a vapor nas imediações, mais precisamente na rua Domingos de Morais.

Nesse processo de desenvolvimento várias indústrias foram atraídas para o bairro que se formava, como a fábrica de fósforos de Carlos Petit (1888) e a Chocolates Lacta (1912). Nas décadas seguintes chegariam a Bozzano, a Pianos Brasil e a Walita. Existe outra teoria relacionada a Petit sobre a origem do nome Vila Mariana. Suas duas filhas se chamavam Maria e Anna.

O matadouro da Vila Mariana ficou ativo até 1927, quando se tornou inconciliável com a crescente vizinhança residencial. Na sequência seus galpões passaram mais de seis décadas em estado de abandono, usados como depósitos da prefeitura. Só em 1988 o imóvel foi cedido para a Cinemateca Brasileira, que possui o maior acervo audiovisual da América do Sul e passa agora por uma reforma com aporte da Netflix.

O imóvel foi tombado pelo Conpresp (órgão municipal de defesa do patrimônio) e pelo Condephaat (órgão estadual) entre os anos 1980 e 1990. A primeira sala de cinema do complexo, a Oscarito, foi inaugurada em 1997. Nos anos seguintes veio a sala Grande Otelo, uma tela de projeção ao ar livre, laboratórios para recuperar filmes, depósitos e áreas administrativas. O velho matadouro é um exemplo de restauro bem-sucedido realizado com finalidade cultural.