As marginais Pinheiros e Tietê, que cruzam São Paulo e servem de ligação para as principais rodovias do estado, vivem uma rotina de violência ao longo de seus 47 quilômetros de extensão.

São diversas as modalidades criminosas. Ladrões em motocicletas que visam roubar outras motos, os que buscam aparelhos celular, além dos que se escondem em canteiros e se aproveitam da lentidão do trânsito para pegar telefones, conhecidos por integrarem as gangues de quebra-vidro.

O latrocíncio (roubo seguido de morte) mais recente ocorreu na marginal Tietê na noite de sexta-feira (28) e teve como vítima o cabo da Polícia Militar Paulo Roberto Lima Pereira, 44.

O policial foi baleado na cabeça ao parar o carro no acostamento da via, na altura do bairro Parque Novo Mundo, zona norte, após um problema no veículo.

A investigação aponta que criminosos teriam usado pedras na via para obrigar motoristas a parar e, assim, assaltá-los. Pereira teria sido morto com a própria arma, roubada pelos criminosos.

A Polícia Civil apura o envolvimento de três homens moradores da região, que foram identificados e tiveram a prisão pedida à Justiça. A investigação é conduzida pela delegacia de Latrocínio do Deic (Departamento Estadual de Investigações Criminais).

Segundo a Secretaria da Segurança Pública do estado, de janeiro a julho 157 infratores foram presos em flagrante pelo Comando de Policiamento de Trânsito; outros 35 procurados pela Justiça foram capturados.

No período, também foram apreendidas seis armas de fogo e 878 quilos de drogas. Não foi informado o dado relativo ao mesmo período do ano passado, o que permitiria a observação da tendência.

O tipo de ataque sofrido pelo policial, com pedras na via, é considerado por delegados e investigadores ouvidos como algo incomum. Há cerca de dois anos, por outro lado, ladrões se jogavam na frente de veículos, obrigando motoristas a parar e assim cometendo assaltos na altura da ponte Tatuapé.

A pasta da Segurança diz que a Polícia Militar reforçou policiamento nas marginais com a implantação de 28 pontos fixos de viaturas, distribuídos em locais e horários de maior incidência criminal. "A medida integra as ações de combate à criminalidade nas vias".

"As marginais também recebem operações especiais de trânsito e repressão a crimes como roubos e furtos. Em 4 de agosto, três adolescentes foram apreendidos na marginal Tietê após quebrarem o vidro de um veículo e tentarem furtar um celular. Eles foram reconhecidos pela vítima e encaminhados ao 7º Distrito Policial", acrescentou.

Policiais que atuam no entorno do ponto em que o cabo foi atacado afirmam haver uma constância de ações de um dos grupos conhecido como quebra-vidro.

Somente no entorno da área que abrange o Parque Novo Mundo, onde o PM foi morto, policiais civis contabilizaram 85 registros de roubos e furtos de celulares e de carga na marginal Tietê neste ano.

Um homem de 18 anos que atuava ali foi preso em agosto por policiais civis. Ele contou que roubava para ter status com mulheres no baile funk que frequentava. Aos investigadores afirmou que recebia R$ 4 mil por um iPhone 17 desbloqueado, aparelho que pode ultrapassar R$ 10 mil no mercado formal. O lucro pode ser ainda maior se a vítima tiver saldo em conta.

Um ou outro dos presos nesta modalidade apresenta ferimentos nas mãos, após ser atingido por estilhaços de vidro durante o ataque.

Para Rafael Alcadipani, professor da FGV na área de segurança pública, as marginais se tornam suscetível ao roubo devido aos congestionamentos e áreas de escape de difícil acesso.

"Uma quantidade muito grande de carro sem possibilidade de ir para as ruas com áreas de escape fácil. A gente precisa inovar no policiamento, fazer um policiamento mais inteligente para poder prevenir que esses crimes aconteçam".

Estudante de direito foi morta em assalto em maio

Meses antes da morte do policial, na tarde de 9 de maio, a estudante de direito Vilma Araújo dos Santos, 27, seguia pela marginal Pinheiros, no Jardim Fonte do Morumbi, zona oeste de São Paulo, quando dois criminosos cruzaram seu caminho. Ela ia a uma festa infantil.

Vilma conduzia uma Yamaha Fazer ano 2025 no sentido Interlagos e passou a ser seguida por dois homens em outra moto. Os criminosos queriam um celular preso a um suporte no painel da motocicleta.

Sem sucesso na abordagem, um dos criminosos chutou a moto em que estavam Vilma e sua namorada. Ela se desequilibrou, perdeu o controle e bateu contra o guard-rail que separa a pista do parque Bruno Covas, segundo relato da companheira à polícia.

Após o chute, os criminosos fugiram. Vilma morreu no local. Um familiar contou à Folha que Vilma estava no último ano do curso de direito e se formaria ao final deste ano. Seu sonho era ser juíza. Diferentemente do assasinato do cabo Pereira, o crime contra a estudante é investigado pelo Deparmento de Homicídios e de Proteção à Pessoa.

A gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos) não informou se suspeitos foram identificados ou presos.

A reportagem questionou as gestões Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Ricardo Nunes (MDB) sobre o monitoramento por câmeras do Muralha Paulista e do Smart Sampa ao longo das vias. Não houve resposta específica.

Por sua vez, a Prefeitura de São Paulo disse, por meio de nota, que a Guarda Civil Metropolitana intensificou, a partir de maio deste ano, o patrulhamento ostensivo em pontos estratégicos da capital, incluindo as marginais Pinheiros e Tietê.

"A atuação da GCM é integrada com a Polícia Militar e potencializada pelo Smart Sampa, que conta com 50 mil câmeras distribuídas pela cidade. A expansão do programa é contínua e prioriza áreas de maior incidência de ocorrências". O muncípio ainda disse que vau reforçar as ações de saúde e assistência social nas marginais.