Ser médico era a minha segunda opção. Eu queria mesmo ser super-herói para salvar o meu irmão gêmeo da morte. Davi e eu dividimos o útero, a placenta, o nascimento e os 8.135 dias que vivemos juntos. Meu irmão viveu 22 anos com síndrome de Rasmussen, uma doença rara que o impediu de ir à escola, aprender a andar de bicicleta e correr comigo pelas estradas do lugar onde crescemos, no interior de Minas Gerais.
O diagnóstico não assustava tanto nossa família quanto o medo de perder Davi. Eu cresci ao redor desse medo e, quando descobri que não poderia me juntar à Liga da Justiça, estudar medicina pareceu ser a escolha mais sensata para cumprir o meu objetivo: salvar Davi.
Todavia, quando se nasce filho de lavradores, em um lugar onde o agro não é pop, mas, sim, meio de sobrevivência para a agricultura familiar, um diploma parece uma missão impossível.
Vô Raimundo não foi alfabetizado, aprendeu somente a assinar o próprio nome —o que já era motivo de orgulho, pois os que vieram antes dele tinham que "bater o dedão". Nossa mãe tem suas primeiras lembranças de infância na lavoura. Estudou até a quinta série e só concluiu os estudos décadas depois, pela Educação de Jovens e Adultos (EJA).
Nosso pai também não pôde estudar, mas formou-se na Universidade da Terra. Conhece as sementes, sabe cuidar das plantas e colher os frutos. Há poucos anos, obteve o diploma do ensino médio por meio do Encceja (Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos).
Eu concluí o ensino médio no tempo regular, em escola pública. Quando criança, para não ter que caminhar por quilômetros de estrada de chão, era transportado por um ônibus amarelo do programa Caminho da Escola. Fui premiado com uma bolsa de estudos em um concurso da Assembleia Legislativa de Minas, aprovado no vestibular de medicina em primeiro lugar, e me tornei o primeiro da família de nossa mãe a segurar um diploma.
Nosso pai dizia que seguraria a enxada para que eu segurasse a caneta. Nossa mãe desdobrava-se entre a roça, o serviço de casa, a fisioterapia e as consultas médicas de Davi. Os dois cultivaram o meu sonho, que, na verdade, não era só meu. Era nosso.
A lição mais importante sobre cuidado não foi a faculdade de medicina que ensinou. Foi Davi, que mesmo sem conseguir falar, me ensinou que não precisava ser salvo. Mais importante que impedir sua morte diante de uma doença incurável era garantir qualidade de vida até o fim, aquilo que somente os cuidados paliativos oferecem.
Reconhecer a finitude de Davi foi doloroso, mas importante. Quando ele morreu, eu cursava o quarto ano da graduação. Quis desistir, sim. Mas permaneci. Permaneci por Davi, por nossos pais e avós, por minhas professoras da rede pública e pelos mestres que me mostraram a importância de um cuidado humano e integral.
Vô Ninico, nosso avô paterno, dizia querer "morrer como um passarinho". Só entendi o que isso significava quando conheci o Melhor em Casa de Caratinga (MG), um programa de atendimento multiprofissional que oferece cuidados paliativos a pacientes como meu irmão.
Davi, meu passarinho, voou para o infinito antes que eu pudesse realizar o sonho de ser o seu médico. Ele não teve acesso a cuidados paliativos, pois o município em que fomos cria dos não conta ainda com um serviço como o citado acima. Eu decidi dedicar a minha existência para que outros Davis recebam a assistência de que meu irmão precisava.
Hoje, trabalhei pela primeira vez como médico. Enquanto eu estava no consultório do SUS, nossos pais trabalhavam debaixo do sol. Davi, de onde estiver, certamente celebra essa conquista.
Isoladamente, nem toda a dedicação do mundo bastaria para que uma família nas condições que narrei chegasse até aqui. Sim, a nossa conquista é fruto do suor de toda a família, mas não seria real sem as políticas públicas que ofereceram oportunidades, do ônibus amarelo ao primeiro emprego pós-formatura.
De fato, não me tornei super-herói. É mais especial que isso. Quando um menino, filho de lavradores, cujo avô sequer pôde aprender a ler, segura um diploma, há muito a celebrar.
Vencemos e seguiremos lutando para que outras famílias brasileiras também vençam.

