Depois de seis décadas, já acompanhei derrotas políticas enervantes e vitórias gloriosas. Como numa final de campeonato, quem perdia para o time adversário tinha que aguentar o sorrisinho triunfante do tio malufista, do primo janista ou da cunhada fissurada no Collor. A depender dos ânimos da família, um ou outro comentário podia acabar em bate-boca, mas era raro alguém melar o evento doméstico.

Famílias dificilmente rompiam em nome de tucanos, petistas e peemedebistas. Afinal, as gestões do tão temido PT se revelaram, na prática, mais próximas da centro-esquerda, com os recordes de lucro dos grandes bancos, o crédito subsidiado bilionário ao agronegócio e a ampliação das concessões à iniciativa privada. A direita, por sua vez, não imaginava um Estado totalmente alheio às necessidades do povo.

Isso foi no tempo da direita tradicional. O cenário mudou de vez com a atual ascensão da extrema direita, calcada na insatisfação com as promessas não cumpridas dos governos —e do capitalismo— e no poder global das redes (anti)sociais.

Da boca de seu maior expoente brasileiro veio a célebre frase: "Vamos fuzilar a petralhada", enquanto simulava atirar com um fuzil usando um tripé. Outras pérolas do cancioneiro bolsonarista como o governo ter matado pouco na ditadura ou a homenagem ao torturador Ustra já haviam sido proferidas.

A insurgência contra o resultado do pleito, em 8 de janeiro de 2023, bebe da mesma fonte ideológica. Aquela que faz Trump elogiar a rapidez da apuração da urna eletrônica quando o resultado lhe convém. E que o fará promover teorias da conspiração caso o desfecho não lhe agrade.

Nem o Maluf, "que rouba, mas faz", se prestou a tamanha desfaçatez nas inúmeras eleições das quais participou. (Já Aécio Neves tentou melar o jogo judicialmente, abrindo a torneira do chorume que chega até nós.)

O efeito dessa ultrapassagem de limites foi devastador para as famílias. Mas não só. Amigos de infância, condôminos e comunidades escolares perderam a capacidade de dialogar. Contribuiu para esse desfecho o uso que a ultradireita faz de uma certa leitura da religião, que transforma a disputa política em uma guerra santa entre o cidadão de bem e o cidadão do mal. O oponente político passa a ser um infiel e a causa torna quem a defende um ungido de Deus.

A evitação de assuntos sensíveis em ambientes sociais raramente é respeitada por aqueles que entendem o proselitismo como missão. Daí a insistência em manifestarem suas opiniões mesmo quando não são consultados e em não aceitarem a divergência sob nenhuma hipótese.

A liberdade de discordar é negada ao outro, e essa negação é camuflada por discursos que não se ocupam da racionalidade, mas do dogma. Quando questionados sobre suas motivações na escolha do candidato de ultradireita, muitos eleitores não ultrapassam o xingamento ao oponente nem se referem aos méritos próprios do escolhido.

Armar a população é a cereja do bolo de quem vê o adversário político como inimigo mortal. Tudo sob a bênção da indústria bélica e da bancada da bala, na contramão dos mais respeitados especialistas na questão da violência.

Hoje, quem apoia a ultradireita deve ter pelo menos a coragem de assumi-lo. A direita não está representada no segundo turno desta eleição.