Gaspard Monge teve uma carreira científica e política notável: foi ministro da Marinha da França e amigo de Napoleão Bonaparte, além de cofundador da prestigiosa Escola Politécnica de Paris, que inspirou inúmeras congêneres no mundo todo, Brasil incluído. Hoje, é lembrado sobretudo pela descoberta da geometria descritiva, que está na base do desenho técnico. Descoberta tão importante então que a sua divulgação esteve proibida durante 15 anos —a proibição só foi levantada após a Revolução Francesa.
Monge nasceu em 1746 na cidade de Beaune, centro da região vinícola da Borgonha. Foi um jovem prodígio. Aos 16 anos, elaborou um excelente mapa de Beaune a partir de dados coletados com instrumentos que ele próprio construiu. A façanha lhe valeu entrada no Colégio de Lyon, de onde foi convidado a ingressar na Escola Militar de Mezières (o nome na época era muito mais legal: "Escola Real do Gênio"!).
Em 1768, tornou-se professor de matemática em Mezières, onde ensinava desenho e agrimensura. Uma parte importante do curso era a teoria das fortificações, cujo objetivo era projetar métodos de defesa em que nada ficasse exposto ao fogo direto do inimigo. Na época, isso era feito empiricamente e exigia cálculos intermináveis.
Monge desenvolveu um método para resolver problemas espaciais de forma sistemática, baseado na ideia simples, mas genial, de que objetos tridimensionais podem ser representados no plano por meio de suas projeções em dois semiplanos ortogonais. Nascia a geometria descritiva. O novo método simplificava tanto os cálculos de fortificações que, inicialmente, o comandante da escola se recusou a acreditar que estivesse correto. Para convencê-lo, Monge teria explicado que "a simplicidade do resultado se deve a que eu nunca uso aritmética para chegar à solução".
Uma vez convencidas, as autoridades militares logo proibiram a divulgação da descoberta, devido a seu potencial militar. Monge ensinava aos estudantes em Mezières, mas tinha "ordem de nada divulgar, nem verbalmente nem por escrito". A proibição só foi revogada em 1794, quando ele começou a ensinar o seu método na Escola Normal Superior. Cinco anos depois publicou o livro "Geometria descritiva".
A essa altura, Monge ocupava importantes funções na administração política e científica da França revolucionária. Em 1796, recebeu uma carta de Napoleão Bonaparte: "Permita-me agradecer pelas boas-vindas que um jovem oficial de artilharia, sem qualquer importância, recebeu do ministro da Marinha em 1792. Este ato ficou preciosamente preservado na minha memória. Aquele oficial hoje é o general do exército da invasão da Itália. Estou feliz por estender-lhe a mão em reconhecimento e amizade".
Dois anos mais tarde, Monge apoiou a expedição napoleônica ao Egito, em que participou como cientista. Em 1808, já coroado imperador, Napoleão o nomeou conde, honraria que ele aceitou com demasiada convicção para quem no passado tinha votado pela abolição dos títulos aristocráticos. Com a queda de Bonaparte e a volta dos Bourbons ao poder, o novo rei exigiu (e conseguiu) que Monge fosse expulso da Academia de Ciências.
Morreu em Paris em 1818. Num requinte de mesquinhez, o Bourbon proibiu os estudantes da Politécnica de participarem no funeral. Objetivos como todo engenheiro deve ser, os jovens entenderam que o decreto real se referia apenas ao funeral em si. No dia seguinte, marcharam coletivamente para o cemitério, onde colocaram uma coroa de flores na sepultura do mestre.



