"Sou contra cotas porque sou professor da educação básica", afirma Paulo Cruz, representante da candidatura de Renan Santos (Missão), sobre o sistema de cotas sociais e raciais em vigência desde a lei federal de 2012.

Tecnólogo em processamento de dados, filósofo e mestre em ciências da religião, Cruz foi anunciado por Renan como futuro ministro da Educação de eventual mandato e representou o candidato em entrevista ao programa Educação em Debate, uma iniciativa da Folha em parceria com a Fundação Lemann, o Instituto Natura, a Nova Foundation e a Associação Bem Comum.

O programa de entrevistas na TV Folha explora as propostas para a educação dos principais candidatos à Presidência no pleito deste ano.

O candidato do Missão defende a abolição das cotas e diz que o debate sobre acesso à universidade precisa ser deslocado para se concentrar na educação básica. Para ele, estudantes negros são especialmente prejudicados pelo sistema educacional antes de chegar à universidade, e "eles estão desassistidos".

Professor da rede pública por dez anos, Cruz afirma que as cotas beneficiam "uma espécie de elite da educação pública" e que a meta seria fazer com que o estudante chegasse ao fim da educação básica "em condições de competir em igualdade com aquele aluno que sai de uma escola particular".

Questionado sobre o que fazer com o jovem que já se formou na educação básica como está hoje, Cruz disse que "abolir" as cotas, como afirma o programa do Missão, poderia ser um "processo gradual".

Entre as propostas de Renan estão o ranqueamento das escolas mais violentas do país e a destinação de mais recursos da União para aquelas consideradas as mais ordeiras.

Cruz afirma que o sistema vive uma crise que tem como um dos principais motores o problema da perda da ordem e da indisciplina. E defende propostas que preveem mudanças no ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) para, segundo ele, favorecer a aplicação de sanções a alunos, como suspensões.

"Educação é atenção", diz Cruz. Para ele, a falta de ordem impede o aluno de aprender. "A escola não pode mais ser um ambiente em que o aluno não distingue mais a rua e a escola."

Para ele, a lógica precisa mudar também no Pé-de-Meia, programa federal que paga bolsas a estudantes pobres do ensino médio. "O aluno só precisa estar na escola. Ele pode estar na escola botando a escola abaixo e tudo bem, se ele tiver frequência", afirmou. Sua proposta é que o benefício considere desempenho além da presença.

Cruz diz reconhecer que nem todo episódio de violência na escola vira um registro policial e que, por isso, o índice de escolas violentas poderia se basear em suspensões e advertências. Admite ainda que muitas escolas poderiam deixar de registrar esses eventos para não serem prejudicadas.

"Você não pode não estabelecer uma regra porque escolas vão burlar essa regra. A regra precisa existir e você precisa fazer com que ela seja cumprida nas escolas."

O programa de Renan também propõe implementar o modelo de escolas cívico-militares nas unidades consideradas mais violentas, tomando El Salvador como referência disciplinar. Cruz, porém, diz que essa não seria necessariamente sua escolha. "Para estabelecer a ordem ou restabelecer a ordem na escola não é necessário que você militarize a escola."

Na pedagogia, a referência defendida é o Ceará. Cruz cita o método fônico de alfabetização e a colaboração entre o estado e seus municípios como práticas a serem replicadas nacionalmente. A ideia é combinar "o modelo pedagógico do Ceará" com "o modelo disciplinar de El Salvador".

Sobre o ensino integral, Cruz rejeita a ideia de que manter o aluno mais tempo na escola seja, por si só, uma política educacional. "Isso não tem a ver com educação, tem a ver com controle", afirmou, referindo-se a argumentos como afastar o estudante da rua e permitir que os pais trabalhem. Para ele, o contraturno precisa oferecer esporte, formação técnica e outras atividades. "Ele tem que sair dali um ser humano melhor."