Maria Elisa Costa chamava os brasilienses de "sobrinhos". Afinal, são todos filhos da irmã que viu nascer e crescer por seis décadas: Brasília.

Como boa irmã mais velha, ela foi grande defensora da caçula. Manifestou-se até os últimos dias em defesa do conceito urbanístico criado por seu pai, o arquiteto Lucio Costa. Em 2017, por exemplo, chamou de "ridícula" e "deformação paisagística" a instalação de grades e a limitação de acesso em parte do Eixo Monumental.

Mais recentemente, em 2021, voltou-se contra a possível venda do Palácio Capanema (antigo prédio do Ministério da Educação), no Rio de Janeiro, um dos mais importantes marcos da arquitetura modernista no Brasil, cujo projeto também teve envolvimento de seu pai.

Foi a ela, então jovem estudante de arquitetura, que o urbanista mostrou pela primeira vez a proposta para o concurso da futura capital, com um rascunho feito a mão. Tempos depois, desceu do carro do pai para protocolar o projeto no Ministério da Educação, em 1957.

"Desde então, dedicou boa parte de sua vida a defender o Plano Piloto da ganância imobiliária que até hoje insiste em tentar desfigurá-lo", conta Julieta Costa Sobral, filha de Maria Elisa.

Nas palavras dela, a arquiteta foi uma mulher profundamente ligada às raízes brasileiras. Gostava de pegar sol e tomar banho de mar e tinha grande senso de humor. "Guerreira e aguerrida, defendia suas causas com inteligência, precisão e argúcia", descreve.

Mesmo ligada a Brasília, nasceu e morou a maior parte da vida na antiga capital, no Rio de Janeiro. A maior exceção foi o período de exílio em Paris, nos anos 1960, durante a ditadura militar, quando seu marido, Eduardo Sobral, teve os direitos políticos cassados.

Como "guardiã" da obra do pai, Maria Elisa participou da organização do acervo do urbanista e dirigiu a associação Casa de Lucio Costa. Também elaborou, por cerca de dez anos, a autobiografia dele.

Assim que formada arquiteta e urbanista, trabalhou por cinco anos na elaboração e na análise de projetos de implantação progressiva da nova cidade pela Novacap (Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil).

Sua trajetória se expandiu para além da memória do pai, contudo. Trabalhou em áreas diversas, com projetos arquitetônicos, legislação urbanística, administração pública e artes gráficas, entre outras.

Foi presidente do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) em 2003 e 2004 e assinou planos de urbanização e projetos arquitetônicos, de casas a intervenções de maior porte.

A lista inclui intervenções na Universidade Regional do Cariri, o viário do Centro Administrativo da Bahia e o Teatro Violeta Arraes, em Nova Olinda (CE).

Maria Elisa Modesto Guimarães Costa morreu, aos 91 anos, em 25 de agosto. Deixou a filha, as netas Clara, Julia e Sofia e os bisnetos Benjamin e Zoe.

Diversas instituições se manifestaram com notas de pesar. O Ministério da Cultura destacou que a contribuição de Maria Elisa "permanece inscrita na história de Brasília e na reflexão sobre a proteção das referências arquitetônicas e urbanísticas brasileiras". O Governo do Distrito Federal decretou três dias de luto oficial.