Gonzaguinha perguntava o que é a vida. E, entre tantos que poderiam responder, escolheu a criança. Não o sábio, não o poeta, mas o menino ou a menina de joelho ralado, com o queixo melado de sorvete, o dedo no nariz e sem os dentes da frente.

A maior das belezas é essa: ser um eterno aprendiz. E ninguém leva tão a sério o ofício de aprendiz como a criança. Ela pergunta tudo. Quem inventou o tempo? Por que os elefantes têm tromba? Por que tem crianças que não podem ir para a escola? Por que os adultos trabalham tanto para ganhar dinheiro, se dizem que dinheiro não traz felicidade? Por que as pessoas morrem? Para onde elas vão depois? Por que você mentiu?

Ela pode começar perguntando por que a formiga é tão pequena e terminar querendo saber se ela sabe que é pequena. O ser pensante é, por natureza, um ser perguntante.

Quando tivemos um arrastão no prédio, confinados em um quartinho com os vizinhos, meu filho, com então cinco anos, perguntou a um dos ladrões: Por que você tá fazendo isso? Ele não enxergou a máscara no rosto e a arma na mão. Sentimos medo. O ladrão ficou quieto. Nenhum de nós esqueceu essa pergunta.

A infância é a idade em que ainda temos coragem de perguntar sem ter medo de parecer ridículos. As crianças pensam com o corpo inteiro, questionam o que consideramos óbvio, desconfiam de explicações prontas. Não conhecem a fronteira entre filosofia e brincadeira, e talvez seja esse o jeito mais honesto de tentar compreender o que jamais será entendido por inteiro.

Falam de Deus, pensam no amor, lidam com a injustiça. Na fila da cantina, na troca de figurinhas, de mão dada com o amigo, sem nunca terem ouvido falar em Platão —filosofia se aprende mais no recreio do que nos livros. Não sabem amarrar os próprios sapatos, mas já tropeçam, com os cadarços soltos, nos mistérios da metafísica.

Não desenvolveram a extraordinária habilidade que nós, adultos, adquirimos de conviver, sem sobressalto, com o que não entendemos. Dizemos que a vida é assim mesmo, que nem tudo precisa de explicação, e seguimos em frente. As crianças, não. Elas não se conformam com a grandeza do universo, com os detalhes, com as contradições e com o milagre da natureza. Por isso levantam as sobrancelhas de espanto todos os dias.

Um porquê puxa o outro, que puxa o próximo, até que o adulto, vencido pelo cansaço ou pela própria ignorância, apresenta seu argumento final: "Porque sim". Ou: "Quando você crescer, você vai entender". É uma promessa ingrata. A criança não quer entender quando crescer. Quer entender agora, do tamanho que é. Talvez intua que, mais tarde, aquela pergunta já não será a mesma e que o ponto de interrogação, de tanto uso, vai se desgastar em reticências.

Todos os que mudaram alguma coisa começaram por não se contentar com a resposta que lhes deram.

Mas a gente vai perdendo a pergunta aos poucos. Perde a espontaneidade e a curiosidade. Aprende a dar respostas e, de tanto responder, deixa de ouvir as perguntas.

Outro dia, à noite, no escuro, uma voz pequena perguntou:

— Pai, você já foi criança?

— Já.

— E o que aconteceu?

Feliz dia, crianças! Continuem desconfiando dos nossos "porque sim", contestando nossas certezas, nos ensinando a olhar de novo para as coisas que já não enxergamos.