A Promotoria de Karşıyaka, na Turquia, investiga a morte do empresário brasileiro Lucas Nascimento de Medeiros, 33, sob custódia das autoridades migratórias locais.
Documentos obtidos pela Folha identificam uma promotora como responsável pela apuração e registram o óbito em um hospital da cidade de Esmirna em 10 de outubro.
O corpo foi liberado para a irmã do empresário, a advogada Isis Nascimento de Medeiros, nesta quinta-feira (15), com autorização para voltar ao Brasil. O desembarque está previsto para sábado (17). Isis pede que autoridades brasileiras realizem uma nova autópsia no país.
"Eu quero saber se o corpo do meu irmão teve alguma marca de violência. A autópsia na Turquia vai demorar um ano.", diz.
A causa da morte não consta nos documentos oficiais. O termo de autópsia diz que um relatório detalhado será elaborado após exames laboratoriais, procedimento que pode levar de seis meses a um ano. No documento de óbito, consta que as causas "não foram impressas porque ainda não foram aprovadas pelo médico revisor".
A irmã afirma que se reuniu com a promotora nesta quinta, acompanhada de advogado e tradutor, para questionar a versão de suicídio transmitida inicialmente à família. De acordo com Isis, a promotora considerou a morte suspeita e determinou que o caso passasse a constar como sob investigação.
A advogada disse ter visto o rosto do irmão no necrotério, mas afirmou ter sido impedida de observar o restante do corpo. Isis pretende acionar a Polícia Federal e o Ministério Público no Brasil para reavaliar o cadáver antes do sepultamento.
Conforme relatos obtidos pela família via advogado turco, Lucas teria chegado alterado ao aeroporto de Istambul e tentado escalar uma cerca de segurança. Detido, foi transferido para o centro de detenção migratória de Harmandalı, em Esmirna.
Na unidade, teria ficado em uma cela com outros três detentos com os quais não conseguia se comunicar. A versão recebida pelos familiares apontava tentativa de suicídio no banheiro e morte a caminho do hospital —o documento de óbito, porém, registra o falecimento já na unidade hospitalar.
Natural de Natal (RN), Lucas morava no Porto, em Portugal, onde mantinha uma franquia. Documentos mostram que, em 9 de outubro, um cunhado procurou o centro de Harmandalı por email para alertar que o brasileiro estava desaparecido e poderia estar em surto de saúde mental.
A família também enviou email ao Consulado-Geral do Brasil em Istambul alertando sobre a vulnerabilidade do empresário.
O último contato direto ocorreu em 8 de outubro. Lucas informou que retornaria ao Brasil, mas não desembarcou no voo previsto para o Aeroporto Internacional de Cumbica, em Guarulhos, no dia 12.
Um boletim de ocorrência foi registrado por outro irmão, João Marcos Nascimento de Medeiros, no 7º DP (Lapa), na zona oeste de SP.
Em nota, a Secretaria de Segurança Pública paulista disse que registrou a comunicação da morte na segunda-feira (12) após ser procurada pela família e confirmar a informação junto ao Consulado-Geral do Brasil em Istambul.
A pasta disse que o registro, de natureza não criminal, foi encaminhado à instância competente para avaliação das providências cabíveis, incluindo eventual cooperação internacional, e ressaltou que as circunstâncias da morte devem ser apuradas pelas autoridades turcas.
Procurado, o Itamaraty afirmou que acompanha o caso pelo consulado em Istambul e presta assistência à família. O órgão não forneceu detalhes sobre a detenção nem sobre a causa da morte.
A Folha solicitou informações à Polícia Federal, ao governo provincial de Esmirna e ao centro de Harmandalı, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem.



