Com a morte de Amelinha Teles, o Brasil perdeu uma parte importante da história da luta contra a ditadura militar. A memória de uma mulher torturada diante dos filhos pequenos. A vida inteira de uma ativista.

E foi meu pai quem percebeu que, com a morte de Zuenir Ventura, uma semana depois dela, desaparecia o último nome do trio de assinaturas que, segundo ele, fechava todo manifesto contra a ditadura.

Ziraldo. Zuenir. E Zuza.

José Eduardo Homem de Mello, o Zuza, foi o primeiro a ir embora, ainda em 2020. Ziraldo faleceu em 2024. E agora Zuenir.

Eu podia aproveitar esse gancho, dado o tema mais comum dessas colunas, pra falar da invencível criatividade brasileira para a invenção de nomes malucos e perfeitos (Zuenir!).

Podia também falar, pensando em Ziraldo, da tendência cada vez mais comum de artistas com apenas um nome. Uma espécie de marca pessoal, de Adele a Zendaya. E nós chegamos bem antes: de Alcione a Cartola e Djavan, de Marta a Mussum, de Pixinguinha a Zica e Zico.

Podia falar também da história da ordem alfabética. E na verdade já fiz isso neste jornal, respondendo à pergunta de uma criança.

Mas, nesta semana, não é disso que eu quero falar. Não é disso que eu acho que se deva falar.

Eu quero só deixar o meu tributo a esses nomes, de A a Z. E, em nome deles, quero lembrar que existem muitos Brasis: uns ocultos, uns calados, uns gritando, outros batendo, uns amarrados, outros correndo. E existiu sempre quem erguesse a voz mesmo nos momentos mais lúgubres, quem não concebesse se isentar, mesmo incorrendo num imenso risco, muitas vezes com efetivo custo pessoal.

Houve quem assinasse manifestos. Houve quem não se calasse.

Daniela Thomas, a brilhante filha do brilhante Ziraldo, me diz que vive até hoje assombrada pela memória dos momentos em que seu pai foi levado de casa pela polícia do governo militar: criança, vivendo sob a sombra dos dias e dias de ausência, sem explicação ou informação, sem certeza e sem sossego.

Eu cresci numa casa em que a ideia dessa resistência ao horror se manifestava das mais variadas maneiras. No humor, sim, mas na raiva também.

Vi meu pai um dia correr pra defender dois meninos de rua que estavam apanhando da PM. E fiquei com medo. Da PM. E levei anos para entender a grandeza do ato do seu Lauro.

Sou irmão de um jornalista que precisou inventar com a esposa e os amigos um jornal independente quando perdeu o emprego assim que Bolsonaro foi eleito.

Sou casado com uma mulher que tem uma tolerância baixíssima com a injustiça, a crueldade. Uma dessas pessoas fortes e preciosas, que não vão ficar caladas. Sou pai de uma moça com uma consciência política informada, ativa e alerta.

Euzinho... Eu sou pequeno. Eu estudo palavras. Escrevo notas de rodapé.

Mas agradeço cotidianamente a todo um alfabeto de pessoas cujos nomes foram apagados da história oficial, cujas vidas muitas vezes foram eliminadas. E agradeço àqueles que restaram.

Agradeço por termos saído de uma ditadura e por termos agora aprendido que nada do que nos assombrava está morto, enterrado, esquecido. Que o preço da liberdade é a eterna vigilância. Que tudo pode sempre estar por um fio. Que tudo que se ergueu pode cair e tudo que esteve oculto pode ressurgir.

Agradeço, de A a Z, por podermos votar. E temos a obrigação de manter esse direito.

Torço. E agradeço. Amelinha, Ziraldo, Zuenir, Zuza... E que a lista se renove.