O pãozinho da padaria é um dos cinco alimentos mais consumidos do país, só perde para o arroz, o feijão e o café. Invenção nacional, surgiu no Rio de Janeiro, possivelmente ainda nos tempos de dom João 6º, que passou a importar a escassa farinha branca.
Também se fala que seu surgimento foi impulsionado pela chegada de viajantes que voltavam da Europa no começo do século 20 e queriam encontrar no Brasil algo parecido com uma baguete. Desenvolveu-se uma versão reduzida, que, além de levar os ingredientes da congênere francesa (farinha, água, sal e fermento biológico), costuma receber pequenas quantidades de açúcar e margarina.
O curioso é que o produto tem diversos nomes regionais e está disponível em padarias do Oiapoque ao Chuí. Em São Paulo e no Rio chama-se pão francês. Em Minas Gerais, no Espírito Santo e na Bahia é pão de sal, nome também usado no Rio. No Ceará, o nome é carioquinha, no Amazonas e no Pará, careca, no Rio Grande do Sul, cacetinho, e, em Santa Catarina, de trigo. O pão, porém, apreciado em todo o país há várias gerações, é o mesmo, com casca fina, dourada e crocante e miolo branco e macio.
Diante dessa predileção nacional, a multinacional norte-americana Bunge fez um pedido ao Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) para tornar o pãozinho da padaria patrimônio cultural imaterial da Nação. A empresa, grande fabricante de farinha de trigo, criou a campanha nacional "O pão que junta o Brasil" e lançou uma petição pública reivindicando que o produto e a arte de produzi-lo tenham um reconhecimento à altura de sua importância.
"O pão traz questões culturais e sociais muito relevantes", diz Fernanda Louvise, diretora de marketing de trigo da Bunge. "Além do produto em si, queremos que sejam reconhecidas as técnicas, as tradições e o conhecimento para fazê-lo." No seu pedido, feito em conjunto com a Fundação Bunge e com representantes do setor de panificação, a empresa considera a questão da memória afetiva que liga os consumidores ao alimento. A lembrança do pão quentinho ou com manteiga na chapa dá água na boca de todos os brasileiros.
Apenas na região metropolitana de São Paulo, segundo o Sampapão (Sindicato e Associação dos Industriais de Panificação e Confeitaria de São Paulo), são consumidas 20 milhões de unidades por dia ou 7,3 bilhões por ano. Em todo o país, esse consumo é de 2,35 milhões de toneladas, o equivalente a 47 bilhões de unidades anuais. Cada pãozinho pesa cerca de 50 gramas e custa entre R$ 0,75 e R$ 1,75.
O setor de panificação tem grande importância econômica, gerando 2,76 milhões de empregos diretos e indiretos e movimentando no ano passado R$ 164 bilhões, com participação no PIB (Produto Interno Bruto) de 1,29%, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria de Panificação e Confeitaria (Abip). O pãozinho tem uma grande fatia desse faturamento. É o carro-chefe das padarias e um produto que gera negócios e fortalece as economias locais.
Um dos objetivos da elevação do produto e suas técnicas de produção à condição de patrimônio imaterial, algo que será decidido pelo Iphan, é valorizar o trabalho de padeiros e panificadores que mantêm viva a tradição e a qualidade do pão. Também se considera seu impacto econômico e seu papel simbólico de alimento que une o país. A petição pública aberta pela Bunge ficará aberta a adesões até fevereiro de 2027.
Neste momento cinco processos de produção de alimentos brasileiros são considerados patrimônio imaterial nacional: o ofício das baianas do acarajé, o método de fabricação do queijo artesanal em Minas Gerais, a produção de cajuína no Piauí, o modo de fazer doces artesanais na região de Pelotas (RS) e o trabalho das paneleiras de Goiabeiras (ES), associado à moqueca capixaba. Certamente, há lugar para o pão francês nessa galeria de glórias alimentícias do Brasil.



