A operação do Ministério Público de São Paulo contra a logística do furto e roubo de celulares na capital paulista, deflagrada nesta quinta-feira (10), atingiu empresas conhecidas pela revenda de celulares usados. A principal delas foi a Trocafone, portal de vendas online com mais de dez anos de atuação.
O Gaeco (Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado) diz que a Trocafone ocupava o "topo na cadeia de comercialização" e era o "nó financeiro central" de toda a rede supostamente criminosa. O modelo da empresa —comprar usados e depois revendê-los— serviria para dar aparência legal aos aparelhos roubados ou furtados de vítimas, conforme a Promotoria.
A empresa afirmou nesta quarta, horas após a operação, que "não apenas repudia a comercialização de aparelhos de origem ilícita como tem total interesse e apoia o combate de tal prática, uma vez que prejudica o mercado de recondicionamento de aparelhos".
O estabelecimento disse que "possui rigorosos procedimentos destinados a impedir que equipamentos com indícios de irregularidade entrem na operação da mesma [empresa], incluindo diversas checagens para identificação de aparelhos com bloqueios (IMEIs) com processos de separação e colaboração com as autoridades".
Com 242 mil seguidores no Instagram, a empresa diz em seu site institucional já ter negociado 2,7 milhões de aparelhos recondicionados —usados que passam por processos de restauração— e diz que seu objetivo é "gerar impacto no dia a dia das pessoas, oferecendo a você uma alternativa mais acessível de se conectar com o mundo".
A suspeita mais grave, na avaliação dos promotores, vem de um relatório da Fazenda de São Paulo que analisou o IMEI, número de fábrica de todo celular e semelhante a um chassi de carro, das compras e vendas da plataforma.
O cruzamento das notas de entrada e de saída, segundo o Gaeco, constatou 759,3 mil celulares cujos códigos não apareciam em nenhuma nota de compra. Na prática, o Ministério Público diz que houve uma entrada massiva de "aparelhos de origem furtiva ou roubada" oriundos de outros grupos investigados no caso.
Não foi a primeira vez que o nome da Trocafone apareceu em investigações.
De 2018 a 2024, segundo o Gaeco, a empresa foi citada em 18 relatórios do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) que apontam para operações suspeitas. Os valores chegam a R$ 95,8 milhões.
Entre as atividades atípicas estão 1.299 depósitos fracionados, todos abaixo de R$ 10 mil, padrão típico da prática de lavagem de dinheiro segundo o Ministério Público.
A Trocafone declarou ter entregue "toda a documentação e informações solicitadas até o momento" e que "também está analisando, juntamente com seus assessores jurídicos, os documentos relacionados ao caso".
O Gaeco diz que um gerente de operações da empresa contribuiu com as investigações num depoimento prestado em 2024. Segundo a Promotoria, o profissional afirmou em depoimento que peças de celulares de origem ilícita eram reaproveitadas no recondicionamento desde 2014.
Além das buscas, o MP pediu à Justiça o bloqueio de até R$ 95,8 milhões da Trocafone e de outras empresas envolvidas no caso além da suspensão de suas atividades no âmbito da Receita Federal.
Batizada de Frankmobile, a operação é resultado de cerca de dois anos de investigação do Gaeco. A ação cumpre 84 mandados de busca e apreensão e sete de prisão temporária em São Paulo e também no estado de Goiás. A Justiça ainda autorizou sequestro e bloqueio de mais de R$ 5 milhões dos alvos.



