Um engenheiro civil relatou à CGM (Controladoria Geral do Município) de São Paulo ter encontrado irregularidades ao vistoriar no início do ano um imóvel em construção na Penha, zona leste de São Paulo.

O prédio desabou no sábado (12) e deixou seis mortos. Ele, à época, havia sido chamado por um representante da New Home Construtora, responsável pelo empreendimento, para realizar obras no local.

Fabio José de Oliveira esteve na Controladoria na sexta-feira (18). A prefeitura faz uma investigação em paralelo à da Polícia Civil para apurar possíveis irregularidades na construção do edifício na rua Tequici.

Três responsáveis pela empresa tiveram a prisão decretada. Um dos sócios está preso e um casal segue foragido. O advogado que atendia o trio afirmou ter deixado o caso. Em manifestações anteriores, ele negou irregularidades na obra. A reportagem não identificou a nova defesa.

A polícia apreendeu computadores, celulares e documentos nesta quinta (24) em endereços ligados aos investigados pelo desabamento.

Batizada de Operação Ponto de Ruptura, a ação cumpriu mandados de busca e apreensão em imóveis na zona leste da capital e em Guarujá, na Baixada Santista. A Justiça havia expedido oito mandados.

Segundo a polícia, o material apreendido deve ajudar a identificar possíveis omissões de quem participou da construção, das vistorias e da autorização e liberação do imóvel sob responsabilidade da construtora New Home.

Uma servidora da Subprefeitura da Penha também é investigada. Segundo a polícia, ela atestou a demolição de parte do edifício, o que não ocorreu. Ela já prestou depoimento.

A CGM disse ter embargado todas as obras em andamento na capital das empresas envolvidas no desabamento do prédio.

O engenheiro Oliveira relatou ter ido até a obra em fevereiro. Durante a vistoria, o engenheiro afirmou ter encontrado cerca de 50 apartamentos, número superior às 39 unidades habitacionais previstas no alvará de aprovação e execução. Também disse ter observado novos reforços estruturais.

Outro problema estaria nas escadas, que não atenderiam às normas do Corpo de Bombeiros a partir do quarto andar, onde o espaço se estreitaria.

Conforme o engenheiro, a construção afetava as casas do entorno, onde ele notou que "puxava uma das casas e empurrava a outra". Um dos imóveis, o atingido no desabamento, tinha rachaduras, que também apareciam na sarjeta e chegavam a afetar a calçada.

O engenheiro detalhou que, após a vistoria, foi iniciada uma negociação entre ele e a construtora sobre o que deveria ser feito, como a reestruturação do subsolo, com análise do uso do solo.

De acordo com o depoimento de Oliveira, o projeto do imóvel não previa caixa d'água nem reservatório de combate a incêndio. Diante dos problemas estruturais, ele afirmou ter recomendado a retirada da família que ocupava o imóvel vizinho, por risco de a construção colapsar.

Oliveira disse que representantes da New Home o informaram ter cerca de R$ 670 mil para a reforma. Ele recusou e respondeu que o valor era inviável, por causa dos problemas estruturais de grande relevância.

Sem uma análise do solo, disse, era muito difícil saber os valores exatos para os reparos. Mas calculou que a obra poderia custar entre R$ 1,5 milhão e R$ 5 milhões para que a edificação ficasse em condições de receber a aprovação habite-se da prefeitura.

Oliveira acrescentou que, após o envio da proposta de orçamento, no início de março, a negociação não prosseguiu e a construtora não deu mais retorno.

O engenheiro apresentou a representantes da prefeitura fotos, vídeos e áudios sobre a questão estrutural e o risco de colapso, além da proposta comercial.