As mortes a tiros de três pessoas por policiais militares em um curto espaço de tempo, todas possivelmente em surto, levaram a Ouvidoria da Polícia de São Paulo a propor à gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos) a criação de um grupo de trabalho multidisciplinar para tratar de abordagens.
O ofício com a proposta formal foi encaminhado para o Comando-Geral da Polícia Militar, que tem a coronel Glauce Anselmo Cavalli como chefe.
A Ouvidoria, hoje comandada pelo advogado Mauro Caseri, afirmou em nota haver necessidade de "revisão do protocolo utilizado atualmente para lidar com situações de surto ou crises psicossociais".
Nesta sexta, o governador disse que o treinamento será revisto. "Esses casos nos fizeram refletir sobre os procedimentos", afirmou Tarcísio. Segundo ele, a revisão busca "impedir que excessos aconteçam". A SSP (Secretaria da Segurança Pública) afirmou que todos os casos são investigados.
Camila Pereira da Silva, 32, foi baleada com um tiro no tórax na quinta-feira (15), em uma rua do Parque São Domingos, zona norte da capital. Ela estava com uma faca nas mãos. De acordo com familiares, enfrentava problemas de saúde. Naquele dia, havia ido até a casa do ex-namorado.
O autor do tiro, André Coelho Maximo da Costa, 30, foi preso em flagrante. Nesta sexta-feira (16), porém, foi solto por decisão de um juiz em audiência de custódia. Terá de cumprir medidas cautelares, entre elas ficar afastado do trabalho nas ruas por 12 meses.
"A Ouvidoria destaca que, conforme as informações preliminares, a vítima [Camila] não oferecia risco iminente que justificasse o uso de força letal. A presença de, pelo menos, três policiais militares no local era contingente técnico suficiente para a contenção pacífica da cidadã."
De acordo com o órgão, "o episódio evidencia a importância vital da ampla adoção e uso correto de equipamentos de menor potencial ofensivo, como o dispositivo de incapacitação neuromuscular e tonfa, salvaguardando vidas e garantindo a estrita legalidade e humanização das ações policiais".
No caso de Camila, o PM autor do disparo foi questionado por um delegado se tinha habilitação para o uso de taser, e respondeu que não.
A Ouvidoria é responsável por receber denúncias e queixas contra policiais civis e militares e repassá-las às corregedorias.
O jovem aprendiz Gustavo Munis de Santana, 20, foi morto com 27 tiros na madrugada de sábado (10), na alameda dos Guaramomis, em Moema, na zona sul.
A imagem de uma câmera de segurança mostra o momento em que ele deixa o recuo do imóvel onde estava abrigado e avança em direção à rua onde estavam os PMs, com um celular nas duas mãos, em uma postura semelhante à de alguém segurando uma arma.
Os policiais militares atiraram 45 vezes. A Polícia Civil entendeu que a ação foi legítima, e não houve pedido de prisão dos policiais.
Um documento obtido pela Folha mostra que Gustavo fez 184 ligações para o 190 da PM desde 2021. Minutos antes de ser morto, ele havia feito uma nova chamada, na qual dizia que um homem armado ameaçava se matar em uma passarela. Policiais foram ao local, e Gustavo correu para a rua onde foi morto.
No sábado (3), Antonio Nunes Batista, 40, um homem que teria esquizofrenia, foi morto com 24 tiros na rua Afonso Lopes Vieira, na Vila Dionísia, zona norte.
Foi a única das ações em que os PMs chegaram a usar arma de choque, o taser, na tentativa de conter a vítima. Não houve pedido de prisão.
Todas as três ações foram gravadas por câmeras, duas delas (as de Batista e Camila) por testemunhas com celulares.


