Se você por algum motivo gosta desta coluna, agradeça à Universidade Federal do Paraná.

Eu entrei na UFPR em 1993, calouro da licenciatura em português e francês. Em 1997 já tinha concluído o português, e assim pude ingressar no mestrado em linguística ainda antes de concluir a dupla licenciatura. Quando defendi o mestrado, eu já tinha sido aprovado no concurso para professor, iniciando uma carreira de quase 29 anos de docência na minha própria "casa".

Com essas sobreposições de trajetória, não houve um único dia, nesses mais de 30 anos, em que eu não estivesse formalmente ligado àquele curso, àquela universidade.

E foi ali, como aluno de graduação, como mestrando e, há décadas e décadas, como professor, que eu aprendi tudo que pode me dar alguma chance de ter o que te dizer aqui. Sobre língua portuguesa, linguística histórica e —como deve saber qualquer aluno de uma universidade pública— também sobre cidadania, responsabilidade.

Foram mais de 30 anos para formar um eu.

Uma pessoa que sabe coisas que muita gente pode até desconhecer. E que foi treinada para descobrir mais. E para ser capaz de organizar essas informações díspares de maneira a torná-las não só compreensíveis, mas também palatáveis para alunos de graduação e de pós. Para professores em formação que serão capazes de dar continuidade a essa história. Para alunos dos meus alunos e, a essa altura, até para alunos dos alunos dos meus alunos.

E também para você.

Para o público mais amplo e atento, que pode estar só agora descobrindo o tamanho da curiosidade que tinha sobre esses assuntos estranhos que eu passei a vida tentando dominar.

A manutenção do sistema federal de educação superior, de sua existência e de seu financiamento, estará nas mãos de quem for empossado em janeiro. A manutenção das bolsas para alunos de mestrado, doutorado, iniciação científica, além de outras destinadas a permitir que pessoas em situação financeira mais fragilizada se mantenham na universidade.

A manutenção, também, do sistema de cotas que mudou a cara não apenas da própria universidade, mas também da sociedade brasileira, povoada agora por profissionais mais diversos e representativos, que põem em pauta temas e objetivos de grupos que antes tendiam a ser escanteados.

Eu traduzi mais de 60 livros e escrevi os meus. Pude ir muito além da escolaridade dos meus pais. Aprendi línguas, teoria literária, tradução, linguística. E saí disso tudo "formado" num processo que vai muito, mas muito além da concessão de um diploma de graduação. Num processo que, no nosso país, oferece sem custos a melhor educação disponível. Gratuita. Livre. Aberta.

Foram mais de 30 anos para poder escrever estas colunas. Mais de 30 anos de universidade pública brasileira.

Agora, se vier a assumir a Presidência um senador que diz que pretende tirar as universidades federais do Ministério da Educação e declara que as bolsas de pesquisa devem ser destinadas às ciências duras e à inteligência artificial —e não a áreas que "não agreguem nada" ao país—, saiba que é de mim, que é de nós que ele está falando.

Nós, que não somos "o mercado", nós que insistimos em pensar por conta própria, nós, que não agregamos nada, a não ser tudo o que faz sentido e pode dar sentido.