Juliano Spyer, nesta Folha, lembrou que circula entre grupos evangélicos bolsonaristas a associação entre Alexandre de Moraes e o faraó do Egito. Ao pedir orações "aos irmãos evangélicos" diante dos embates recentes travados com Moraes, André Mendonça fomentou ainda mais a percepção religiosa de uma luta entre a luz e as trevas.

O evangélico brasileiro interpreta a realidade política pelas lentes das histórias e personagens da Bíblia, sobretudo a partir dos eventos e figuras do Antigo Testamento. Diante de qualquer acontecimento envolvendo uma figura política, busca-se imediatamente uma referência bíblica para comparar e interpretar o significado do fato presente.

Esse tipo de leitura, contudo, costuma ser dualista e deixa escapar as ambiguidades que acompanham os homens e mulheres retratados nas páginas sagradas. A consequência é a perda das contradições dos personagens da atualidade e das nuances das pautas políticas.

Se Alexandre de Moraes é faraó, quem é André Mendonça na Bíblia? Nos grupos evangélicos, circulam comparações com Moisés, os reis Davi e Salomão, o profeta Daniel e até o próprio Jesus. Não vi, porém, nenhuma associação de Mendonça a personagens do livro de Juízes, no Antigo Testamento.

Antes do período monárquico, as tribos de Israel eram governadas por juízes, cujas trajetórias estão registradas nesse livro. Utilizando o método do espelhamento bíblico para ler os acontecimentos contemporâneos, sugiro comparar André Mendonça ao juiz Sansão, cuja história é narrada nos capítulos 14 a 16.

Sansão notabilizou-se por sua força descomunal, com a qual dizimava os exércitos filisteus. A origem dessa força mítica residia em seus cabelos. Nos braços de Dalila, contudo, revelou o segredo; ela raspou suas tranças enquanto ele dormia e o entregou aos inimigos.

Vazaram-lhe os olhos e o transformaram em objeto de deboche. Sansão vingou-se ao derrubar as colunas do templo onde se divertiam os príncipes dos filisteus. O livro de Juízes encerra sua biografia anotando: "Foram mais os que matou na sua morte do que os que matara na sua vida" (Juízes 16:30).

Sansão é o juiz cego que destrói os inimigos e a si mesmo. Ao investir contra Moraes, Mendonça mostrou-se cego para as próprias fraquezas: o Iter, com seus contratos com órgãos públicos e recursos recebidos de um sócio de Daniel Vorcaro, e a amizade com Ciro Rocha Soares, advogado que intermediou seu encontro com Vorcaro na sede do instituto em São Paulo.

Ao ser sorteado para relatar o caso Master, Mendonça sabia que sua carreira no STF enfrentaria o maior teste. Teria de navegar na arte política de poupar os amigos e aplicar a lei aos inimigos. Na vexaminosa sessão de 15 de setembro, assim como Sansão, empurrou as colunas do STF. O prédio segue intacto, mas a Suprema Corte jaz sob os escombros.

Dos quadros técnicos incorporados por Jair Bolsonaro ao governo, Mendonça era o mais dotado de habilidade política. Triunfou onde Sergio Moro fracassou e alcançou a cobiçada vaga no STF, a despeito do pouco empenho de Bolsonaro e da oposição de Alcolumbre. Mendonça soube usar a seu favor a afinidade religiosa com Michelle Bolsonaro e o apoio da bancada evangélica.

Assim como Sansão, Mendonça tem o seu enigma: se Moraes vier a ser punido, Mendonça será o vingador. Se Mendonça sofrer algum tipo de punição, será o herói injustiçado. A esta altura, vale deixar de perguntar quem é André Mendonça na Bíblia e ficar atento a qual cargo sua foto ocupará na cédula das próximas eleições.

O caminho para que André Mendonça deixe a magistratura e ingresse na carreira política está pavimentado com o mármore da implosão do STF.