Pedregulho, no interior de São Paulo, já tinha 85 anos quando ganhou seu hino. A prefeitura promoveu um grande concurso público e convidou autoridades locais para compor o júri. Venceu Cláudia Silva, então universitária, cuja letra se tornaria um símbolo da cidade —e marcaria para sempre sua trajetória.

Para o então prefeito Antônio Sinício, as oito décadas de espera foram um hiato necessário até que surgisse a pessoa ideal para escrevê-lo. Uma "moça estudante, caráter positivo, digna de exemplo aos outros jovens desta terra", que alcançava a "belíssima e rara oportunidade de poder inscrever seu nome, perenemente, na história de Pedregulho —sua cidade natal", dizia o anúncio da vencedora, em 7 de setembro de 1982.

Embora a legislação municipal atribua a letra apenas a Cláudia, ela sempre dividiu os méritos com o pai, Zé Brechó, poeta amador que não perdia oportunidade de recitar suas obras. Seu poema preferido, muitas vezes declamado entre lágrimas, celebrava a alegria de ter tido seis filhos.

"A quinta é uma opala pequena, digna de uma princesa. Cláudia é a joia morena que encanta com sua beleza", dizia sobre sua pupila, nascida em 17 de maio de 1962.

Cláudia venceu o concurso em meio a transformações pessoais. Aos 20 anos, havia deixado a premiada fanfarra de Paulinho Becker, na qual ocupou por anos o posto de baliza, para investir no namoro com o cabeludo Carlos, malvisto pela família dela.

Com o tempo, a decisão se mostrou acertada. O namorado virou marido dedicado e pai de Flávia e Bruno. Os pouco mais de 15 mil habitantes da cidade testemunharam uma relação que se tornaria referência de cumplicidade e parceria. Carlos virou Kula, apelido indelével. Para Cláudia, porém, era o Bem.

A filha de dona Iolanda também se tornou referência como professora. Dominava a língua de Camões como poucos e despertou em muitos jovens o prazer da leitura. Aposentou-se em 2014, após quase 30 anos de magistério.

Recusou os convites para voltar às salas de aula. Dizia que aquele amor não resistira às mudanças entre gerações. Preferia cozinhar para a família: da extensa lista de pratos, sobressaíam a feijoada e um tutu sem igual. Também passou a se dedicar a outra paixão: pescar.

Colegas da Escola Estadual José Vicente Machado Netto compareceram às últimas homenagens. Renata Ramos, amiga de longa data, leu um texto que terminava com algo já antevisto por Sinício em 1982:

"E que as suas palavras continuem ecoando entre nós, como uma lembrança permanente de uma mulher que ensinou, escreveu, criou e, acima de tudo, deixou amor por onde passou. Você será eternamente lembrada", disse ela, minutos antes de os presentes entoarem o hino de Pedregulho.

Os mais atentos notaram que uma das coroas de flores trazia um trecho do hino: "Pedregulho eu te amo tanto/Cidade onde nasci/Teu cascalho será o meu manto/Me tornando parte de ti".

Na tarde chuvosa da última terça-feira (22), Pedregulho se despediu da mulher que, 44 anos antes, havia transformado em versos o amor pela terra da qual agora se tornava parte.