Quando a transição do feudalismo para o capitalismo virava assunto nas conversas de casa, Ana Maria de Aguiar Bergamin recorria a um mapa aberto sobre a mesa.
Diante das filhas, a professora de história desenhava no papel as rotas marítimas, os bloqueios no mundo árabe e o caminho das correntes dos oceanos. Ao conectar os fatos às imagens dos trajetos, ela tornava mais simples entender a formação do mundo moderno.
A prática de usar recursos visuais para repassar o conhecimento acompanhou toda a sua trajetória em sala de aula. Formada em história pela USP (Universidade de São Paulo), Ana fez da docência e do ensino a sua atividade principal.
"Ela amava dar aula. Sempre foi a paixão dela", afirma a livreira Manuela Bergamin Neves, 29. Ela conta que também cursou história influenciada pela mãe.
Nascida em São Paulo, Ana passou os primeiros anos de vida no bairro de Boaçava, na zona oeste, em uma época em que as ruas da região ainda passavam por asfaltamento e urbanização.
Na infância e na adolescência, costumava viajar durante as férias escolares para Piracicaba, no interior paulista, onde se reunia com avós, tios e uma numerosa turma de primos.
Sua relação com a Escola Vera Cruz começou ainda como aluna do maternal e seguiu ao longo do ensino fundamental. Anos mais tarde, retornou à instituição como auxiliar de classe e integrou a equipe responsável por implementar o ensino médio no colégio, atuando na primeira turma de professores.
O trabalho diário na escola levou a encontros que se estenderam para além do período escolar. Manuela recorda o convívio com os estudantes. "Como professora, ela foi muito marcante. Lembro de quando ela me levava à escola e os alunos me rodeavam para falar o quanto a amavam."
A paixão por explicar os grandes processos históricos ganhava ainda mais força em temas específicos. Ao tratar da transição do feudalismo para o capitalismo, Ana costumava levar para a sala de aula uma passagem do "Manifesto Comunista" para ilustrar a formação do sistema capitalista.
Em 2013, assumiu o cargo de coordenadora do ensino médio, função em que permaneceu por mais de dez anos, até se aposentar para cuidar da saúde.
Anos depois da época escolar, ex-alunos que a encontravam na rua frequentemente abordavam a família para relatar o impacto de suas aulas.
Ana preservou grupos de convivência formados em diferentes épocas, como as colegas da faculdade de história e os professores com quem trabalhou no colégio.
Na vida familiar, manteve o diálogo constante com as três filhas e a proximidade com o ex-marido, Paulo. No último mês, passou a conviver também com a cachorrinha Cuca, adotada pela família, que virou a paixão de sua vida.
Ana morreu em 16 de outubro, um dia após o Dia dos Professores, em decorrência de um câncer. Deixa as filhas Manuela, Carolina e Isabel, o ex-marido, Paulo, a cachorrinha Cuca e gerações de estudantes.


