Este texto melhora se for lido ao som de "Heart of Glass", do Blondie, ou "Planet Earth", do Duran Duran. Eram as bandas preferidas do Paulão.
Definida a trilha sonora, começa o obituário.
"Paulão, tenho uns pedaços de carne de porco na geladeira. Como preparo?"
"Pauleta, sugestão de restaurante pra almoço fácil pra mim, que tô na Vila Madalena, e pro meu amigo, de Higienópolis?"
"Esse time do Boca é ruim faz tempo ou piorou agora?"
"Tá ligado na última playlist do Danger Mouse? Não tem música ruim."
As três primeiras perguntas, entre muitas e muitas em 40 anos de amizade, fiz para valer.
A última, não deu tempo. Ia mandar no dia em que Paulão morreu, de uma pneumonia devastadora. Depois de 12 horas de internação, não mais que isso, puf, foi-se aos 62 anos Paulo Cesar Martin, uma das mentes mais ecléticas e generosas, um dos caras mais legais que já pisaram nestes tristes trópicos.
E por que eu perguntava tanto? Porque ninguém precisava de Google, ou de IA, ou da própria memória, se tinha Paulão como amigo.
Conheci Paulão na Folha, vizinhos de Redação. Depois trabalhamos no Notícias Populares e fomos contemporâneos na Globo. Também apresentamos, com André Barcinski, o hoje lendário "Garagem", caos radiofônico nas madrugadas paulistanas, entre o final do século passado e o início deste. Da minha parte, o programa era uma bagunça. Eu chegava sempre em cima da hora, quando chegava. Mas o Pauleta, não: roteirizava, produzia, organizava. O "Garagem" era ele.
Tocávamos no programa nossa especialidade: o que de mais moderno existia no rock/pop. Mas era impossível passar à frente do Paulão. No tempo dos CDs, quando eu viajava a trabalho ao exterior, perguntava se ele queria algo. Ele mandava a lista e, sempre, 90% ainda nem tinham sido lançados. Como o Paulão sabia de tanta novidade antes de todo mundo? Não me pergunte.
Imbatível ele também era ao rastrear novidades gastronômicas. Mas não esses "achadinhos" de araque de redes sociais, e sim pérolas do submundo com rango de primeira. Lembro de um peruano a que ele ia na cracolândia, cujo nome me esqueço –só lembro que tinha a palavra "carajo" e o slogan era "donde el rey es Usted". Meu próximo plano era explorar com ele e o escritor Júlio Bernardo os chineses que proliferam no bairro do Pari. Não deu tempo.
No velório lotado, muito se ouviu a palavra "mestre". De jornalistas que estavam lá e que, no início de carreira, foram ciceroneados pelo Paulão, paciente e criativo, pelos caminhos do que é uma pauta de interesse; e de como encontrar, num turbilhão desordenado de informações, a notícia relevante.
Paulão, nosso querido Pauleta, corintiano fã da Argentina, grande DJ, cozinheiro de mão cheia, "renaissance man" da Vila Califórnia, deixa a irmã, a brava Antônia, além de sobrinhos, três cachorros, um pássaro e a Jac, a jornalista Jacqueline Lattari, a ex-esposa mais amiga de que se tem notícia desde que o casamento –e as separações– foi inventado. Deixa também todos nós, amigos e admiradores, com um enorme vazio na alma. Valeu, animal.

