"A pior disputa eleitoral dos últimos tempos." É provável que esta frase já tenha sido pensada ou verbalizada repetidamente nos últimos dias. Diferentemente das campanhas passadas, marcadas por gritaria e polarização histérica, o atual cenário político carrega tal título por um motivo oposto e muito mais perigoso: o silêncio. O barraco deu lugar a um vazio angustiante, onde o cidadão percebeu que está falando sozinho.

Ouso dizer que há, hoje, uma trégua dentro dos lares brasileiros, nos grupos de WhatsApp e da firma. Não porque finalmente chegamos a um consenso ou amadurecemos o nosso espírito republicano, mas pura e simplesmente porque desistimos. Entendemos que a política, no nível de degradação em que se encontra, não vale a quebra dos nossos laços afetivos e muito menos uma úlcera. A paz no almoço de domingo é, na real, uma imensa ressaca emocional, um mecanismo de defesa psicológico de uma sociedade esgotada que não aguenta mais se indignar 24 horas por dia.

A eleição deixou de ser assunto. Quando a Quaest mostra ali uns 10% de brancos, nulos e gente que já decidiu que não vai votar de jeito nenhum, não é indecisão. É preguiça, é vontade de ficar no sofá. É a consagração absoluta do "tanto faz". O sintoma mais grave em uma democracia não é o fanatismo histérico, é a apatia. Essa indiferença toda é o atestado de óbito daquela esperança fofa de que apertar um botão na urna muda alguma coisa.

Vale lembrar que, mesmo numa corrida presidencial fortemente polarizada como a de 2022, as abstenções atingiram a marca de 20,9% logo no primeiro turno, o que representou mais de 32 milhões de ausentes. Com o atual desânimo e a desmotivação patente, a grande questão que se levanta é se caminhamos a passos largos para um novo e trágico recorde de evasão cívica.

De um lado, o horário eleitoral parece uma fita VHS mofada dos anos 90. Um formato engessado e ridículo que não conversa com ninguém que viva na velocidade do TikTok. Do outro, a gente assiste de camarote à normalização do absurdo e ao esvaziamento do debate, que culmina com as emissoras simplesmente cancelando o confronto entre os candidatos. O mais bizarro? Tem gente batendo palma para isso. A praça pública faliu e, no lugar, nos enfiaram um reality show de quinta categoria.

Tem um ponto que não dá para ignorar: quando os bonitos fogem da sabatina, eles controlam a narrativa do jeitinho que querem. Fogem das perguntas difíceis e atropelam o jornalismo. É assustador ver gente aplaudindo isso sem compreender a função dos veículos de comunicação durante um período de escolhas democráticas. Os repórteres e analistas não existem para servir de claque –ainda que muitos vivam disso–, mas para atuar como filtro entre as promessas fantasiosas dos candidatos e a vida real do eleitor.

Você acha ruim com eles? Pode ter certeza de que é muito pior sem eles. Ao evitar a exposição, os candidatos se isolam nas suas bolhas digitais e escapam ilesos ao contraditório. Quem aplaude essa palhaçada está só comemorando o próprio direito de ser feito de idiota.

A paralisia daqueles que se recusam a votar e a covardia dos que fogem do embate se encontram no mesmo abismo moral. O perigo real não está na hipótese de o sistema ruir com um estrondo assustador, mas sim na possibilidade de ele morrer de absoluto tédio. Quando a massa silenciosa joga a toalha, desiste e opta por "ficar em casa", essa alienação entrega as chaves do poder diretamente nas mãos de minorias radicais e claques pagas. O esgotamento do eleitorado, que não aguenta mais essa polarização, pode acabar sendo o golpe mais letal e silencioso que as nossas instituições já tomaram.