Ah, o retorno da vida! Oiçam!

Pássaros trinam, flores desabrocham, capivaras sorridentes saltitam gorduchas e os anjos e erês rodopiam na cabeça de tudo quanto é alfinete. Doces zéfiros sopram na paisagem e carregam nuvens densas, pesadas e opressoras para longe. Para bem longe.

Pois estamos na primavera, lembram? Renascer da beleza, da esperança. Tempos sorridentes, perfumados e estrelados. Até Curitiba amanheceu nesta última segunda-feira (26) com um surpreendente dia de sol e —ouso dizer?— alegria. Sim. Alegria.

Às sete da manhã eu atravessava o calçadão da rua XV de Novembro rumo à universidade e ouvia as pedras soprarem lindas melodias. Eu estou subitamente tão feliz que vou sair falando de histórias de palavras, pra variar um pouco. Celebrar o retorno da felicidade com um retorno aos hábitos bons, ao bom humor, à leveza talvez.

(Ninguém, afinal, quer me ver saltitando barrigudo…)

Vamos falar da primavera?

Só que, pra isso, precisa começar pelo verão, porque, para os romanos antigos, as duas estações eram concebidas mais ou menos como uma só, tipo a temporada quente do ano. E o nome desse período era "ver".

Quer dizer, o verão até tinha um nome próprio, por assim dizer. A palavra era "aestus" e sobreviveu no nosso vocabulário (ainda que não seja comum) com a forma "esto" e o sentido de "calor intenso".

As nossas palavras "estio" e "estiagem" também têm relação com esse termo e com a noção de "clima bom", que acabou se estendendo também para significar "cessação da chuva". "Aestus" era tudo de bom.

(Diga-se de passagem, outras línguas mantêm a raiz dessa palavra no nome da estação quente do ano, como no caso do italiano, do francês e do catalão com "estate", "été", "estiu". O romeno tira seu termo direto daquele "ver" e usa a palavra "vara".)

Mas, com o passar do tempo, o que realmente pegou entre os romanos foi falar desses dias quentes como "tempus veranum". Tempos "de verão". Tempos "estivais" (e olha o "aestus" de novo!). E é essa a origem da nossa palavra "verão".

Já os meses que levavam a esse período eram chamados de algo como "primeiros verões", o que, numa língua como o latim, em que o plural muitas vezes se fazia sem o nosso "s", mas com mudanças de vogais (como no italiano), partia de um singular "primo vere" e chegava ao plural "prima vera".

E prontinho. Tadá! Eis a nossa primavera.

E a prova de que essa construção é tardia —e teve uma trajetória sólida na língua latina popular, de Roma, da península Itálica e de tudo quando é região do Império— é que a palavra "primavera" tem uma sobrevida ainda mais estável que a do verão.

Ela é exatamente igual em português, galego, espanhol, catalão e italiano. E em romeno só muda um pouco de cara para "primavara" (com um acento que parece uma boquinha sorrindo em cima dos dois primeiros "a"). Até no romanche, uma língua minoritária da Suíça, existe "primavaira".

Mas, já que sempre há de haver um esquisito na família, quem destoa aqui é o francês. A estação por lá se chama "printemps", e o termo surge literalmente da ideia de que a primavera, renascer da vida vegetal, ressurgir dos animais que hibernam, da luz, da esperança, do cronista empolgado e até do sol em Curitiba, era o começo de tudo, o "primeiro tempo".

E ele chegou. Uma vez mais. Bora.