Dizem que Belo Horizonte (MG) é a cidade dos encontros, que eles sempre acontecem nas esquinas e as pessoas os veem pelas janelas. O raciocínio, claro, tem a ver com as músicas de Milton Nascimento e Lô Borges. Mas a vida de Olney Galvão ajuda a entender o cenário da capital mineira.
A menos de 20 minutos do cruzamento onde o Clube da Esquina foi criado está a rua dos Andes, no bairro Prado. Na década de 1960, o local era rota dos praticantes de montaria do CPOR (Centro de Preparação de Oficiais da Reserva). Por lá ficava a casa de Maria Regina (1944 – 2009), a jovem que se interessou por Olney, um médico recém-formado pela Universidade de Minas Gerais —futura UFMG.
Além da troca de olhares pela janela, Regina e Olney tinham amigos em comum. Não demorou muito para o flerte virar encontro, e depois namoro.
No período de faculdade, Olney ainda arrumou tempo para jogar futebol, um de seus passatempos favoritos. Ele integrou a equipe da universidade em torneios que foram parar nas páginas dos jornais. Em 30 de abril de 1962, a Tribuna Universitária cita um time formado por Eloi e Juarez, ambos da turma de Olney, a 48ª Medicina Federal.
Em uma entrevista recente a estudantes de medicina, Olney disse que jogou contra Tostão na época dos torneios universitários.
Depois da formatura, em 1964, Olney se especializou em neurocirurgia com a orientação dos pesquisadores José Geraldo Albernaz e Gilberto Belisário Campos. O livro "História da Neurocirurgia no Brasil" descreve Albernaz e Campos como responsáveis pela consolidação da escola de neurologia mineira entre as décadas de 1950 e 1960.
A especialização concluída e o casamento com Maria Regina marcaram o fim do ciclo mineiro de Olney. Em 1968, ele resolveu voltar para o estado onde nasceu, então Mato Grosso.
Na época, a neurocirurgia era rudimentar em Campo Grande, futura capital de Mato Grosso do Sul. Olney tornou-se o segundo neurocirurgião da cidade e, ao lado do pioneiro Naidor João da Silva, ampliou o atendimento a pacientes neurológicos na Santa Casa da cidade.
Os dois colaboraram para o ensino da especialidade na Faculdade de Medicina da Universidade Estadual de Mato Grosso, inaugurada em 1970.
Ele teve três filhos: Vanessa, Vander e Viviane. Com a vida estabelecida na cidade, Olney pôde se dedicar à família e à outra paixão: o Vasco. Sempre que podia, também ia ao estádio de São Januário, no Rio, para acompanhar de perto os jogos do time.
Aos poucos Olney deixou de fazer cirurgias para focar no atendimento ambulatorial. Por 31 anos, ele trabalhou na Apae (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais), com educação e acompanhamento neurológico de pessoas com deficiência. Em 2018, a instituição homenageou o médico.
Olney morreu em 25 de julho, aos 86 anos. Deixou 3 filhos, 5 netos e a segunda esposa, Maria da Conceição Alves Sampaio.


