Quando se depara com notícias sobre o El Niño previsto para este ano, a professora aposentada Sandra Motta, 57, sente que "a cabeça não para de funcionar".

Ela imagina todos os cenários catastróficos que podem ocorrer e quais medidas tomar em relação a isso.

Moradora de Canoas, zona metropolitana de Porto Alegre (RS), a professora teve de sair de sua casa em 3 de maio de 2024 devido às inundações que devastaram parte do Rio Grande do Sul.

Somente em julho daquele ano ela conseguiu voltar a morar na casa, que foi tomada por água, lama e sujeira.

Por medo de uma nova enchente, a professora acabou decidindo comprar um apartamento em uma zona alta da cidade. Ela se mudou para lá há cerca de dois meses.

"É triste. Era um lugar em que eu gostava tanto de morar", lembra, falando da casa.

As enchentes de 2024 no estado estavam associadas ao El Niño, fenômeno caracterizado pelo aquecimento acima da média das águas do oceano Pacífico.

Um novo El Niño se desenvolve neste ano e deve ser um dos mais fortes da história, segundo o serviço meteorológico nacional do Reino Unido, o Met Office.

O incessante pensar de Motta acarreta em cansaço e tensão, que "endurecem" seu queixo e pescoço.

"É fisioterapia que eu tenho que pagar para aliviar isso", relata.

Para ela, a necessidade de tomar medidas para se preparar para um novo evento extremo, desde comprar uma luz de emergência a trocar de endereço, gera ansiedade, mas faz parte de um "novo normal".

A ausência de políticas públicas para se preparar para futuras enchentes, bem como notícias sobre desmatamento e o fim de algumas salvaguardas ambientais alimentam a preocupação de Motta.

"Essas coisas de não ver perspectiva de o mundo melhorar bate muito forte na gente. A gente sabe o que vai acontecer e vê que nada foi feito para melhorar."

A Prefeitura de Canoas não respondeu a um pedido de posicionamento da reportagem.

Para cuidar dos sofrimentos mentais que enfrentou depois das enchentes, Motta participa de atendimentos psicológicos oferecidos pelo Projeto Recomeçar, do Hospital Moinhos de Vento, que atende vítimas da enchente de 2024.

O psiquiatra Christian Kieling, coordenador do projeto, avalia que é natural que quem tenha passado pelo evento receie viver algo parecido de novo.

Extremos climáticos podem desencadear depressão, ansiedade e, por vezes, estresse pós-traumático.

Joana Corrêa de Magalhães Narvaez, professora da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), acrescenta que a maior frequência do fenômeno traz uma sensação generalizada de "desesperança".

No entanto, Narvaez alerta que as reações advindas da antecipação de um próximo El Niño não devem ser lidas necessariamente como sinais de transtornos psiquiátricos a serem tratados com remédios, pois podem ser respostas "funcionais" a situações como estas.

As secas no Norte

Já em algumas partes do Norte brasileiro, o último El Niño esteve associado a secas históricas, em 2023 e 2024.

Segundo estudo do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), em 2023, a Amazônia perdeu no acumulado dos meses 3,3 milhões de hectares de superfície d'água (rios, igarapés, lagos, reservatórios) em comparação com 2022, o equivalente à área de 21 cidades de São Paulo.

Em 2024, a perda foi de mais 2,2 milhões de hectares.

Na comunidade de Urucury, no município de Manicoré (AM), a estiagem trouxe dificuldades de locomoção ao secar os igarapés (cursos d'água normalmente menores que rios).

De Urucury até a sede do município, leva-se duas horas de voadeira (uma embarcação a motor), passando pelo Rio Madeira. É através desse caminho aquático que os moradores acessam mercado, farmácia, serviços médicos, bancos, entre outros.

Com as secas, os moradores precisavam andar mais para chegar até os igarapés e o rio Madeira se tornou mais difícil de navegar, em razão do aparecimento de bancos de areia.

A estiagem também fez com que plantações de milho, renda de muitas famílias, secassem antes que pudessem ser colhidas. Com isso, muitas famílias tiveram que reduzir itens da cesta básica, relata a professora e líder comunitária Jhuacelly Laura Veiga Campos, de 42 anos.

Agora, ela se preocupa que o mesmo quadro volte a se repetir. O igarapé que margeia a comunidade costuma secar em setembro, mas neste ano este processo começou em agosto.

Para Jhuacelly, a comunidade não está preparada para uma nova estiagem decorrente do El Niño e falta assistência do poder público.

"Vem a ansiedade: 'Meu Deus do céu, será que vai ser pior?'", relata a líder comunitária.

Embora parte da subsistência da família de Jhuacelly venha da pesca e da agricultura, ela trabalha como professora, o que garante a renda durante os períodos de seca.

"Mas e as outras famílias? A gente não pensa só na gente, pensa no outro e isso preocupa muito."

A possibilidade de uma nova seca gera mais pressão em sua posição de líder comunitária. Décadas atrás, ela conta que o peso da responsabilidade contribuiu para seu adoecimento mental, chegando a um diagnóstico de depressão.

Hoje, ela faz o que pode para estimular a sensibilidade ambiental dos moradores —por exemplo, para reduzir a quantidade de roçado e as queimadas, que fazem parte da cultura local como forma de limpar o solo para agricultura e tratar o lixo.

O fundador da Fundação Amazônia Sustentável (FAS), Virgilio Viana, analisa que faltam políticas públicas integradas e preventivas para lidar com as secas.

Segundo ele, o mais comum é que as autoridades façam ações emergenciais quando os desastres já ocorreram, em vez do ideal —que seriam planos de adaptação climática construídos em articulação entre governos municipais, estaduais e federais, levando também em conta as especificidades de cada comunidade.

Procurada, a Prefeitura de Manicoré afirmou que criou em junho a Lei Municipal de Mudanças Climáticas, a qual orienta ações locais de prevenção, adaptação e enfrentamento dos impactos associados aos eventos climáticos extremos.

A lei estipula que o município deve combater queimadas, orientar comunidades sobre resposta a eventos extremos, preparar e organizar brigadas voluntárias, implantar viveiros florestais e apoiar comunidades em projetos de reflorestamento.

Estresse climático antecipatório

O sofrimento descrito por Sandra Motta no Sul e Jhuacelly no Norte se aproxima do que foi chamado por um estudo de "estresse climático antecipatório".

A pesquisa, realizada por pesquisadores da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, investigou esse tipo de estresse em uma comunidade em que eventos extremos são recorrentes —a população do Condado de Lake, na Califórnia, que sofre com temporadas de incêndios.

Entre 2015 e 2022, o fogo atingiu cerca de 60% do território do condado.

Os pesquisadores entrevistaram 813 pessoas entre junho e agosto de 2023, pouco tempo antes da temporada de queimadas. A região tem alta proporção de idosos, pessoas de baixa renda e índices de transtornos mentais.

O trabalho concluiu que indivíduos que tiveram experiências anteriores com eventos extremos apresentavam maior nível de ansiedade relacionada às mudanças climáticas e de estresse antecipatório.

A exposição à mídia também foi associada a um nível maior de estresse antecipatório. Por outro lado, os que tinham mais contato com esse tipo de informação também estavam mais propensos a se preparar para eles.

O estudo foi publicado em maio de 2025 na revista científica BMJ Mental Health.

No Brasil, levantamento da consultoria Nexus detectou que o temor pelo El Niño fez as pesquisas no Google a respeito do fenômeno explodirem. A média mensal de pesquisas sobre o assunto aumentou 930% entre março e maio deste ano em relação ao trimestre anterior, de dezembro a fevereiro.

Os estados do Sul foram os que mais pesquisaram a respeito do El Niño, com Santa Catarina na frente, seguido por Rio Grande do Sul e Paraná. Em seguida vêm Rondônia, Espírito Santo e Mato Grosso do Sul.

Professor da Universidade Federal do Acre (UFAC), Leandro Amorim Rosa reconhece que a falta de políticas públicas tende a piorar o sofrimento das pessoas diante dos desastres, especialmente os mais vulneráveis —os indígenas, povos tradicionais, mulheres, negros, periféricos e a população LGBT+, ele aponta.

Ao mesmo tempo, o professor destaca que o engajamento coletivo na luta socioambiental pode melhorar a saúde mental à medida que contribui para lidar com a sensação de desamparo —tomando cuidado, porém, para não sobrecarregar as pessoas individualmente.

"Sentir que não está sozinho e que está participando, que está contribuindo de alguma forma diante desse cenário, pode ser promotor de saúde", diz.