"Decidimos não prosseguir com a sua participação no festival deste ano." Foi assim, por email, que a escritora argentina Ariana Harwicz soube que foi excluída do Festival Internacional de Arte, Literatura e Humanidades Cultur Alh, em Granada, na Espanha.

O "desconvite" veio depois da pressão de grupos estudantis e coletivos pró-Palestina para excluir Harwicz da programação. A razão: questões de segurança. A explicação: o não alinhamento da posição pública da escritora contra o boicote cultural com o compromisso institucional do evento. Resumo: suas opiniões geopolíticas não permitiram que falasse sobre literatura. Por ser contra um boicote, foi boicotada.

Autora de "Morra, Amor", finalista do International Booker, que ganhou versão para o cinema estrelada por Jennifer Lawrence e para teatro que terá estreia no Brasil com Mariana Santos, Harwicz insistiu em participar, mas, segundo ela, disseram que seria perigoso. "A censura é idiota e contraproducente. Ela sempre visa a eliminar a dissidência, quando o que é realmente interessante é a discussão", declarou.

A repercussão foi imediata na comunidade literária. John Banville, uma das atrações do programa, cancelou a própria participação em protesto contra o banimento. Mais de 350 escritores, artistas e intelectuais assinaram um manifesto de apoio a Harwicz, defendendo a liberdade de expressão e o pluralismo.

O manifesto não pede que ninguém concorde com ela. Pede algo mais elementar: que divergência seja respondida com divergência, não com banimento.

A cultura do boicote impõe tolerância zero para a discórdia. A coação social tornou-se um instrumento — eficaz, diga-se de passagem — que decide quais pessoas e quais discursos são permitidos. A mensagem é clara: cuidado com o que você diz e, principalmente, deixa de dizer.

Existem "palavras-chave": causas certas, indignações certas. Tentar debater fora desses limites é arriscado. Ed Sheeran está pagando o preço por ter cedido à pressão dos donos do estádio e retirado Macklemore da sua turnê. Chorou, pediu desculpas, mas o tribunal ideológico não perdoou.

Na literatura, Harwicz não está sozinha. Em 2023, Elizabeth Gilbert, autora de "Comer, Rezar, Amar", anunciou um novo romance, "The Snow Forest". Dias depois, sob uma enxurrada de críticas de leitores ucranianos, retirou o livro do calendário de publicação. O problema não era uma defesa de Putin, era o romance se passar na Sibéria. Salman Rushdie, cujos livros são proibidos de circular em vários países, desistiu do Festival de Literatura de Jaipur, na Índia, depois de ameaças de morte.

No Brasil, não ficamos atrás. Milly Lacombe, um ano atrás, foi convidada para a Festa Literomusical de São José dos Campos. Foi vetada pelo prefeito depois da repercussão de uma fala sobre família em meio à pressão de políticos locais.

A liberdade de expressão não serve para proteger consensos, mas para aquilo que provoca e contraria, ainda que incomode. Cancelar uma voz não elimina o que ela pensa; só impede que a ideia possa ser discutida.

A higienização cultural retira o escritor do festival, o músico do palco, o livro do debate. O ambiente fica mais homogêneo, mais seguro —e muito menos interessante.

Uma cultura que só admite consenso deixa de ser cultura. Deixa de ser o lugar onde se constrói o pensamento crítico para se transformar num espaço fechado em que se verifica, na porta, se o artista tem a senha para entrar.