A Polícia Civil não havia recebido, até o fim da tarde deste domingo –mais de 60 horas após a ocorrência–, as imagens das câmeras corporais dos policiais militares envolvidos na morte de Gustavo Munis Santana, 20, na madrugada de sábado (10), na alameda dos Guaramomis, em Moema, bairro da zona sul de São Paulo.

O caso chamou a atenção pela quantidade de disparos realizados. Foram 45 tiros disparados por quatro praças, ou seja, policiais de baixa patente (três soldados e um sargento), contra o rapaz que estava desarmado.

As imagens das câmeras são importantes para se entender a dinâmica do ocorrido, além de demonstrar se Gustavo já estava caído quando foi atingido pelos tiros. Conforme o boletim de ocorrência, a solicitação para acesso ao registro das câmeras foi feita por e-mail ainda no sábado.

A perícia inicial, feita no local, identificou 27 lesões por arma de fogo, da cabeça às pernas.

Gustavo trabalhava como jovem aprendiz em um hospital. Ele foi sepultado nesta segunda-feira (12), no cemitério de Congonhas, também na zona sul. Familiares e demais presentes mantiveram silêncio; algumas pessoas levavam rosas nas mãos.

Segundo o boletim de ocorrência, os policiais teriam confundido o celular do jovem com uma arma de fogo.

A reportagem questionou a SSP (Secretaria da Segurança Pública) sobre a demora no envio das imagens aos investigadores, mas não obteve resposta. A pasta também não explicou por que o DHPP (Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa), unidade especializada nesse tipo de caso, demorou seis horas para ser avisado nem por que o corpo ficou mais de dez horas na via pública até ser removido por um carro do Instituto Médico Legal.

Em nota, a Secretaria da Segurança Pública na gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos) se limitou a dizer que não tolera desvios de conduta de seus agentes e que apura com rigor as circunstâncias do caso.

"Os policiais envolvidos foram afastados das atividades operacionais e as armas foram apreendidas para perícia", diz a pasta. Confira a nota completa abaixo.

A pasta acrescentou que o caso é investigado pelo Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa e por meio de Inquérito Policial Militar aberto pela própria unidade dos policiais militares envolvidos na ocorrência, com acompanhamento da Corregedoria da PM.

Segundo o Boletim de Ocorrência, a Polícia Civil teve acesso apenas a parte das imagens ainda no sábado e descreve o que vê no vídeo. "Durante a ação, a equipe da Polícia Militar utilizou câmeras corporais. Solicitamos a visualização das imagens para o encarregado da ocorrência. Tivemos acesso e o que se observou foi o seguinte: o indivíduo surge de uma área escura, junto à fachada do imóvel, e estende os braços apontando algo na direção da rua, onde estavam os policiais."

O registro não deixa claro se Gustavo apontou o celular para a rua ou diretamente para os policiais. Ao ser baleado, ele vestia camiseta vermelha, calça jeans e tênis preto.

Fontes ligadas à investigação afirmaram à reportagem que um policial civil apenas pôde ver imagens de uma pequena parte da ocorrência, de maneira quase informal. Os investigadores querem todos os vídeos, das câmeras de todos os PMs, para entender a dinâmica completa da ocorrência.

Diante da demora, a Polícia Civil também busca imagens de câmeras de segurança da região.

Todos os policiais envolvidos são da radiopatrulha do 12º Batalhão de Polícia Militar, com sede no Campo Belo. Questionada, a gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos) não respondeu se eles tinham à disposição armas de menor potencial ofensivo, como espingardas com balas de borracha, bombas de efeito moral ou pistolas de choque, chamadas de taser.

Um soldado atirou 14 vezes, quase esvaziando sua pistola Glock calibre .40, cujo carregador comporta 15 munições. Outro soldado disparou 13 vezes, um terceiro, 12, e um sargento, seis.

As viaturas estavam estacionadas ao redor do corpo: uma a 10 metros, outra a 20 metros e uma terceira de frente para ele. Esta tinha duas perfurações no capô, o que pode indicar fogo amigo durante a ação.

Confira a nota completa da Secretaria da Segurança Pública de SP

A Secretaria da Segurança Pública (SSP) não tolera desvios de conduta de seus agentes e apura com rigor as circunstâncias do caso. Constatadas irregularidades, os profissionais serão punidos.

Os policiais envolvidos foram afastados das atividades operacionais e as armas foram apreendidas para perícia. As imagens das câmeras corporais estão em análise. O caso é investigado pelo Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP) e por meio de Inquérito Policial Militar (IPM), com acompanhamento da Corregedoria da PM.