Do jardineiro da escola municipal à assistente de direção, todos que conheceram um dia a generosidade e lealdade de Egle Roberti Scapin Pece lá estavam para se despedir.

Amigos antigos e novos também prestaram sua última homenagem à professora, diretora e ex-presa política, ao som do violino que entoou "Gracias a la Vida", de Violeta Parra, e "Futuros Amantes", de Chico Buarque, entre outras. E se emocionaram com o poema "No Caminho", de Maiakóvski, que tanto diz sobre a trajetória dessa mulher admirável.

Jovem do bairro do Brás, de família italiana, Egle se formou em educação física pela USP (Universidade de São Paulo).

Atleta de formação, foi vice-campeã brasileira da prova de 800 metros, em meados dos anos 1960. Mas não parou por aí. Em busca de novos horizontes, mergulhou nas aulas da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo até que a repressão política a alcançou, em dezembro de 1970.

Militante do Partido Operário Comunista (POC), organização neotrotskista, foi torturada nas dependências da Operação Bandeirante (Oban). Seu silêncio salvou a vida de dirigentes e militantes, entre eles, de seu companheiro de vida, Luiz Carlos.

A mão pesada da ditadura não oferecia, então, outro caminho de sobrevivência senão uma militância discreta e a dedicação à vida intelectual, enriquecida pela leitura, cinema, música e teatro.

O que, no entanto, não evitou a dor frequente das perdas de amigos aqui e no exílio chileno pós-golpe. O respiro naqueles tempos sombrios foi o mar de Ubatuba e, já na democracia, de Paraty.

A formação de Egle se complementou com o curso de pedagogia, necessário para a conquista de cargo de direção no ensino público paulista. Concursada, foi diretora de escola estadual e, depois, do colégio municipal Tenente José Maria Pinto Duarte, em Perdizes.

Nesse período, se aproximou da cultura e dos desafios dos povos latino-americanos, visitando vários países do continente. Militante do PT (Partido dos Trabalhadores) desde a sua criação, estabeleceu laços principalmente com o setor operário.

Aposentada em 2012, a doença de Alzheimer foi se manifestando em lapsos esporádicos, que ficaram mais agudos seis anos mais tarde. Houve momentos ainda de alguma lucidez, em que perguntava se os choques elétricos na cabeça não seriam a causa, contrariando o que a neurologia lhe dizia.

Aos poucos, a biografia da mulher, profissional e ativista política se desfazia até a terminalidade de sua vida, por uma pneumonia, nos primeiros minutos de 17 de setembro de 2026. Egle não teve filhos. Deixa o marido, Luiz Carlos, e amigos.