A trajetória de José Sebastião Maria de Souza não foi das mais rígidas, tanto que costumava brincar que sua profissão era biscateiro. Resposta bem-humorada de quem se dedicava à arte em suas diversas formas. Do cinema underground ao teatro, passando pela música, produção de discos e gestão de acervos em museus.
Sebas, como era carinhosamente chamado, nasceu em Terra Roxa, interior de São Paulo, em 29 de fevereiro de 1944. Eram em oito irmãos, quatro homens e quatro mulheres. Sebas era o terceiro mais novo.
A família não era rica, mas não passava necessidades. Ainda cedo, se mudaram para o bairro da Aclimação, em São Paulo. Sebas, de acordo com a filha, Thaia Cacciamali, 48, chegou a iniciar a graduação em ciências sociais na USP (Universidade de São Paulo), mas a formação foi interrompida em razão dos tempos turbulentos da ditadura militar.
A partir do final dos anos 1960 e início dos 1970, engajou-se no movimento do cinema marginal brasileiro. As produções quase não tinham orçamentos, a estética era crua, e com críticas subliminares ao regime militar. Sebas participou de produções importantes da época e colaborou com cineastas marcantes, como Luiz Sérgio Person, além de rodar produções independentes no sítio da família.
Com a evolução da produção cinematográfica paulistana, o artista passou a trabalhar na efervescente Boca do Lixo, como era conhecida a região do centro paulistano que virou um polo cinematográfico.
Ele expandiu sua atuação para os palcos do teatro, a curadoria e apoio técnico em museus. Marcou presença também no MIS (Museu da Imagem e do Som), onde participou do projeto de preservação e releitura da história da Companhia Cinematográfica Vera Cruz.
Dirigiu, entre outras, as peças teatrais "Duas Mulheres que Dançam" e "Quando as Máquinas Param". Dirigiu apresentações musicais de artistas como Inezita Barroso e a dupla Tonico e Tinoco, além de assinar a cenografia.
Dirigiu documentários sobre São Paulo exibidos pela TV Cultura, além de filmes como "Coração Materno" e "O Quarto da Viúva".
A dedicação à cultura não tirava o foco de sua paternidade. Após a separação, assumiu sozinho a criação de suas duas filhas, Thaia e Clariça. Costumava levá-las para os bastidores dos sets de filmagem, ensaios e outros espaços culturais onde estivesse trabalhando. A presença das crianças tornou-se marca registrada de sua rotina de trabalho.
Quando Thaia tinha por volta de 10 anos, o pais se casou com Dirce Akamine, com quem permaneceu até o final.
"Meu pai é um cara superponta firme, superleal ao que ele sente, ao que ele acredita, e sempre disposto. É um cara que tem empatia pelo próximo. Faz o bem sem esperar nada. Eu acho essa generosidade dele uma coisa tão legal que eu espero ter aprendido com ele", diz ela.
Sebas morreu no dia 11 de setembro em São Paulo, aos 82 anos, vítima de um câncer descoberto semanas antes.
Além das duas filhas e da mulher, deixou também duas netas e uma coleção de amigos e admiradores.


