Uma sequência de secas seguidas nos últimos anos torna ainda mais crítico o prognóstico para alguns rios da região amazônica diante do El Niño. O alerta foi dado pelo Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais), vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, em apresentação nesta terça-feira (15).
Rios como Negro e Xingu, que abriga a usina hidrelétrica de Belo Monte, estão em situação de "seca moderada". A classificação se segue a anos de déficits hidrológicos que dificultam a recuperação de seus níveis para condições normais.
"Associadas a altas temperaturas, as chuvas não têm sido suficientes para recuperar os níveis dos rios", disse Adriana Cuartas, pesquisadora do Cemaden. Com isso, as reservas subterrâneas que mantêm os rios durante a seca não estão sendo abastecidas. "É muita escassez que está se acumulando ao longo do tempo."
O El Niño, que começou em junho, é caracterizado pelo aquecimento acima da média das águas do oceano Pacífico equatorial. O fenômeno já está em patamar forte e há 97% de chance de evoluir para muito forte ainda neste mês, segundo a agência climática dos Estados Unidos.
No Brasil, ele tende a provocar seca nas regiões Norte, Nordeste e mais chuvas na região Sul, além de ondas de calor. Assim, há chances de um verão excepcionalmente quente e seco em grande parte do país.
Cuartas explicou que, em agosto, os rios de diversos rios estavam abaixo do esperado para o período. "Então, a tendência é piorar nessa região e nesses pontos [nos próximos três meses]", disse.
No Xingu, a vazão no mês passado ficou próxima do observado em agosto de 2023, quando o último El Niño provocou estiagem severa na região.
Para lidar com os efeitos do fenômeno climático, o governo brasileiro autorizou que a usina de Belo Monte passe a operar com vazão mínima reduzida, de 100 m³/s, até 30 de novembro.
A redução dos níveis dos rios amazônicos preocupa também pelos impactos sobre a navegação, a pesca e o sustento das comunidades locais.
Os efeitos do El Niño deste ano, no entanto, ainda não estão totalmente claros. Em primeiro lugar, porque dependem de outros fatores, como a temperatura do Oceano Atlântico Tropical e da própria atmosfera, apontaram pesquisadores do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) nesta terça, em evento conjunto com o Cemaden.
Além disso, um El Niño mais forte não significa que terá consequências necessariamente mais graves. A classificação apenas aumenta as chances de que os impactos mais característicos do fenômeno ocorram.
Por fim, os pesquisadores lembraram que impactos ambientais e socioeconômicos dependem também de vulnerabilidades das áreas afetadas.


