No dia 7 de setembro de 1983, em plenas festividades do Dia da Independência do Brasil, a revista Veja foi às bancas com um artigo intitulado "Pela Renúncia de Figueiredo". Assinado pelo empresário Geraldo Forbes, o texto exigia a renúncia do então presidente João Baptista de Oliveira Figueiredo, o último do regime militar.
O texto foi usado como munição pela oposição para reforçar a luta pela redemocratização, sendo copiado e distribuído Brasil afora. Por sua atuação nos bastidores, ele recebeu uma carta de agradecimento de Tancredo Neves, o primeiro presidente eleito pós-ditadura.
A maneira incisiva como escreveu o artigo foi a mesma usada em todas as atividades que exerceu durante a vida, seja no mercado financeiro, seja nas críticas políticas ou gastronômicas em artigos jornalísticos.
Geraldo de Figueiredo Forbes nasceu em 1º de dezembro de 1942 em Santos, no litoral paulista. Filho do médico de origem escocesa Luiz de Souza Dantas Forbes, presidente da Santa Casa da cidade, e de Beatriz Heloiza Figueiredo, professora de história do Brasil criada pelo avô, o general Tasso Fragoso. O militar foi presidente da Junta Governativa Provisória de 1930, que governou o país de 24 de outubro a 3 de novembro, entre a deposição do presidente Washington Luís e a posse de Getúlio Vargas.
O casal teve mais cinco filhos: Carlos, Raul, Luiz, Maria Clara e Jorge.
Formado na Faculdade de Direito da USP em 1965, ele nunca exerceu a advocacia. Optou pelas finanças, área em que se especializou. Entre as empresas que fundou, destaca-se a Finacorp Ltda, que presidiu de 1972 a 1999.
Depois dirigiu as filiais brasileiras da suíça UBS e da sul-africana Standard Bank, antes de ser conselheiro do Banco Modal.
Foi membro do Conselho Deliberativo do IEA-USP (Instituto de Estudos Avançados) entre 1986 e 1993 e integrou a área de Assuntos Internacionais do instituto. Em 1992 e 1993, coordenou, com o cientista político Bolivar Lamounier e o jurista Celso Bastos, o Programa Mobilizador Revisão Constitucional, cujas propostas depois foram encaminhadas ao Congresso Nacional.
Em paralelo às suas atividades, Forbes frequentava bares e restaurantes de todo o mundo e se tornou um dos maiores especialistas em gastronomia e vinhos do país. Ele era adorado por garçons, maîtres, sommeliers e donos de restaurantes.
"Geraldo ensinava com prazer (e, às vezes, com veemência), como preparar determinados pratos e bebidas, e como servi-los. Era um conhecedor da civilização à mesa, e tinha satisfação especial em partilhar esse conhecimento", diz o amigo Matinas Suzuki Jr.
Forbes publicou mais de mil artigos em jornais, revistas e sites do Brasil e do exterior. Foi colaborador do Última Hora de 1973 a 1978 e colunista de O Estado de S. Paulo de 1983 a 1990. Matinas conta que ele parou de escrever os artigos gastronômicos porque começou a fazer muitas inimizades devido às críticas implacáveis.
"Ele sempre teve horror a mentira e pilantragem. Na época que frequentava a noite, ele farejava whisky falsificado de longe. Não só escrevia falando isso, mas também escrevia o nome dos bares que vendiam", diz a filha Alexandra Forbes, 53, jornalista e crítica gastronômica como ele.
Geraldo se casou com a canadense Louise Donohue em 1972 e teve três filhos: Alexandra, Guilherme, 51, e Priscila, 47. Após se divorciar, casou-se novamente com Lígia, há 13 anos, com quem vivia desde então.
"Ele andava muito preocupado com os rumos do nosso país. Sentia-se impotente com o que via como descaminhos. Foi quase um justiceiro, que ficou escrevendo artigos até o fim da vida", diz a filha.
Forbes morreu nesta quarta-feira (9), aos 83 anos, em São Paulo. Deixa a mulher, Lígia, três filhos, os netos Isabella, Tomás, Frederico e Beatriz, e os irmãos Jorge e Maria Clara.
"É muito difícil exprimir as tantas qualidades que esse ser humano tinha. Culto demais, sábio demais —e quando o assunto era culinária, então, era difícil acompanhar, porque ele entendia de tudo. Mas, acima de tudo, era o amigo mais amigo que a palavra amigo pode significar", diz o empresário Gero Fasano.
