De centro financeiro de São Paulo por décadas a corredor cultural consolidado, a constante transformação da avenida Paulista ocorre progressivamente também nos térreos dos edifícios. Em vez de se olhar apenas para o alto, a experiência tem se voltado ao nível da rua, para quem passeia pelas calçadas.
Pouco a pouco, saguões de prédios corporativos, antigas agências bancárias e outros espaços ociosos ou subutilizados dão lugar a novos atrativos.
Nesse contexto, os térreos dos edifícios deixaram de ser apenas acessos e vitrines para a calçada, tornando-se parte da experiência e quase pontos turísticos em si, disputados para vídeos e fotos. Além disso, concentram filas de espera em dias concorridos e trazem movimento à noite e nos fins de semana a edifícios de escritórios.
O caso mais recente é o da Teenage Mutant Ninja Turtles Pizzeria (Tartarugas Ninja Pizzaria), inaugurada em agosto. Após reforma de antiga agência de banco, a entrada foi customizada com decoração e personagens do desenho animado dos anos 1980, em parceria de uma empresa brasileira com a Paramount.
A alguns metros dali, prédio construído pela J.Safra Properties onde antes havia uma agência abriu grande pátio com mesas do Le Jazz Café e movimento de frequentadores da Livraria da Vila. Mais de 140 eventos foram realizados desde a abertura, em dezembro.
Em parte dos térreos, sequer havia histórico de uso para o público em geral, como o Mug, café "escondido" atrás do lobby de uma torre de escritórios. Há, ainda, novidades em espaços por anos esvaziados, como os do antigo banco Panamericano e do Citibank, que viraram restaurante e café.
A transformação paulatina ocorre em contraste com o esvaziamento das chamadas fachadas ativas na cidade, construídas com incentivos do Plano Diretor de 2014.
Nesses locais, grande parte da produção segue sem o desejado movimento nas calçadas, como mostrou levantamento do escritório Campagner para a Associação Comercial de São Paulo —na avenida Rebouças e em trechos da Vila Mariana, por exemplo, amostragem apontou vacância era de 63% e 80% em 2025.
CEO da Lidra, especializada em soluções para fachada ativa, e professor na FIA (Fundação Instituto de Administração), Ricardo Palmaka diz que a famosa avenida é uma grande exceção nesse cenário. "Todo mundo quer estar na Paulista", avalia.
Para ele, a disputa se deve ao movimento de pessoas em todos os turnos e dias da semana. É como um "showroom", diz.
Mudança abrange especialmente espaços de bancos
A maioria das transformações envolve espaços que parcial ou totalmente deixaram de ser endereços de bancos, ligados ao passado da Paulista como coração financeiro da cidade até o início dos anos 2000. Além disso, dados recentes apontam que 37% das agências fecharam no país em uma década.
No caso do antigo prédio do banco Panamericano, por exemplo, foi realizado retrofit completo há dois anos, com abertura de hotel nos pavimentos superiores e do restaurante Jardan no térreo. A marquise foi em parte alterada, criando-se um varandão com vista para a avenida (e seus eventos, como o Réveillon).
Por vezes, essa mudança resgatou uma vocação quase esquecida, como no prédio do Citibank, inaugurado nos anos 1980 e que tinha o restaurante Pennsylvania em seu anexo. O espaço fechou no começo da década seguinte, convertido para uso bancário e, depois, esvaziado.
Head de gestão de serviços imobiliários do Citi, Ricardo Avancini conta que o banco buscou retomar a proposta original com a modernização do prédio e a inauguração da cafeteria We Coffee em 2023. Há mesas também na praça do condomínio.
A cafeteria é popular nas redes sociais pelas sobremesas criativas e instagramáveis. "A avenida Paulista e seu entorno vêm se transformando de forma veloz, trazendo modernização e ainda mais cultura para a região, reforçando que a nossa decisão em permanecer foi assertiva", justificou Avancini.
Pesquisadora em comércio e cidade e professora aposentada da FAU-USP, a urbanista Heliana Comin Vargas relaciona a mudança à digitalização do setor bancário, com concentração de serviços pela internet e menor demanda presencial. "As agências vão perdendo o sentido. O banco pode ficar em cima e abrir o térreo", aponta.
Para ela, o novo momento da Paulista também demonstra parte dos motivos para as fachadas ativas estarem vazias em outros locais: o resultado depende de demanda e flexibilidade para diferentes usos (como comportar cozinhas, por exemplo).
A precursora dessa transformação na avenida foi a parceria da Casa Bauducco com o Banco do Brasil: ambos passaram a dividir térreo na esquina com a rua Augusta em 2021. À Folha a estatal apontou que a mudança foi uma "evolução" da agência, tornando-a mais acolhedora e em interação com a cidade.
Além disso, o balanço da instituição é positivo, com movimento de clientes e compartilhamento de despesas. "Mais do que ocupar um endereço de referência, o banco busca participar ativamente da dinâmica de uma avenida que se reinventou ao longo do tempo", completou em nota.
Paulista atrai público variado
Fundador e CEO da empresa de alimentação temática licenciada Fan&Food, Fernando Saad conta que o objetivo desde o início era que a Paulista fosse o endereço paulistano da pizzaria das Tartarugas Ninja. E também será de outro atrativo igualmente licenciado e em imóvel com passado bancário, com abertura em 2027 —cujo tema não revela por ora.
O empresário afirma que essa localização traz não só aqueles que têm a pizzaria como principal destino, mas também pessoas que passeiam pela avenida e turistas em geral. "É um público muito maior, que está ali pra passear, comer, ver arte, ir no parque, todo esse ecossistema."
Relato semelhante é o da CEO da Livraria da Vila, Eliana Menegucci. Ela conta que o amplo pátio reúne desde a pessoa que se senta em um banco para ler, apreciar a avenida ou tomar um café sem pressa até o público dos eventos, de lançamentos a batalha de rimas. "Funciona como uma pausa, um lugar para as pessoas aproveitarem sem pressa. Complementa a experiência."
Confira os horários de funcionamento:
Casa Bauducco
Av. Paulista, 2.163
Segunda a sexta-feira, das 8h às 20h, e sábado e domingo, das 8h às 19h
Mais informações em casabauducco.com.br
Jardan
Av. Paulista, 2.240
Segunda-feira a sábado, das 6h às 3h, domingo, das 6h à 0h
Mais informações em restaurantejardan.com.br
Le Jazz Café
Av. Paulista, 1.063
Segunda a sexta-feira, das 8h às 22h, sábado, das 9h às 22h, e domingo, das 9h às 20h
Mais informações em instagram.com/lejazz.cafe
Livraria da Vila
Av. Paulista, 1.063
Segunda-feira a sábado, das 9h às 22h, e domingos, das 10h às 20h
Mais informações em livrariadavila.com.br
Mug (café)
Av. Paulista, 1.079
Diariamente, das 8h às 20h
Mais informações em instagram.com/mug.sp/
Tartarugas Ninja Pizzaria
Av. Paulista, 967
Domingo a quinta-feira, das 12h às 22h, sexta-feira e sábado, das 12h à 0h
Mais informações em instagram.com/tartarugasninjapizzaria
We Coffee
Av. Paulista, 1.111
Diariamente, das 7h às 22h
Mais informações em wecoffee.com.br

