Até os 92 anos, o artista e ceramista Yasuichi Kojima não passava um dia sem pintar cerâmicas. O ofício que aprendeu com o pai no Japão, de onde saiu aos 19 anos, atravessou sua vida, garantiu o sustento da família e se transformou em legado artístico no Brasil.

Kojima precisou deixar o Japão, em 1953, pelos reflexos da recessão que assolou o país após a derrota na Segunda Guerra Mundial. "Depois da guerra, não tinha mais como melhorar a vida. Nós comemos até capim na rua", contou à Folha, em 2023.

Com uma mala, US$ 50 no bolso e sem falar português, conseguiu o primeiro emprego em uma fábrica de cerâmica em São Caetano do Sul, no ABC paulista. Com o dinheiro que juntou, comprou um terreno no bairro Feital, em Mauá, onde mais tarde instalaria sua própria fábrica de porcelana.

Seis anos depois, os pais e os irmãos chegaram ao Brasil, e a família concluiu a instalação da fábrica. Juntos, construíram os fornos que seriam usados na produção de peças por mais de seis décadas.

A produção logo chamou a atenção de restaurantes da região e, posteriormente, de compradores de outras partes do país e do exterior. "A produção dele era muito grande, vendeu para todo o Brasil e para fora. Depois, com o tempo, a técnica passou a ser reconhecida como arte", conta a arte-educadora Cecília de Camargo, amiga da família há mais de duas décadas.

A técnica de Kojima foi reconhecida e suas obras passaram a integrar ou ser homenageadas em instituições como o Museu do Ipiranga e a Pinacoteca, em São Paulo.

"Ele não apenas era reconhecido, mas também reconhecia a importância da arte e da cultura. Doava obras para museus e intermediava o contato de outros artistas para que também expusessem seus trabalhos. Era um homem muito generoso", diz Cecília.

Por mais de 50 anos, Kojima foi casado com a também artista Moriyo Kojima. Contava com bom humor que os dois se conheceram em um encontro arranjado por um padrinho. O casamento aconteceu três meses depois do primeiro beijo.

Kojima produziu milhares de peças de porcelana na fábrica. O antigo forno só foi desativado em julho de 2021, quando acendê-lo exigia um grande esforço do artista. Depois disso, passou a utilizar fornos elétricos para fazer vasos, bules, conjuntos de xícaras e pratos.

"Ele era um furacão, tinha uma energia surpreendente. Era mais disposto que muitos homens de 30 ou 40 anos. Nunca parou de produzir, não passava nem mesmo um dia sem pintar ou fazer ikebana (arranjos florais). Mesmo aos 92 anos, estava planejando uma nova exposição e já fazia planos para seu aniversário de cem anos", diz Cecilia.

Kojima sofreu uma queda e fraturou o fêmur. Precisou passar por uma cirurgia, mas contraiu uma infecção hospitalar e morreu no dia 28 de setembro. Foi enterrado no dia 30.

Como última homenagem, a família decidiu colocar aos seus pés, dentro do caixão, um tijolo do forno que ele próprio construiu. Foi naquele forno que, durante décadas, Kojima produziu as peças que deram forma ao seu legado artístico. Ele deixa a mulher, Moriyo, 3 filhos, 5 netos e 2 bisnetas.