Já falei aqui nesta Folha sobre como me preparava para correr uma maratona em 2024 quando descobri que estava grávida. A prova de 42 km é uma superação que muitos corredores amadores, como eu, buscam para dizer "cheguei lá".
Mas não era possível seguir com os treinos justamente devido à alta intensidade que um treino para maratona, sem contar a corrida da prova em si, exige do nosso corpo, que naquele momento passava por todas as transformações fisiológicas da gestação.
Passado o nascimento dos bebês, muitos pais, especialmente as mães, reclamam da falta de tempo —e motivação, quando as noites são picadas entre despertares, mamadas, trocas de fralda e choro— para retomar a prática da atividade física.
Há quem diga que vai esperar a criança ser maior e ter uma certa autonomia para recuperar a ginástica, um caminho contraindicado por muitos médicos, especialmente dados os benefícios à saúde mental e física da prática de atividade semanal.
E se aliar a atividade com o cuidado do bebê for não apenas uma forma prazerosa de conciliar o tempo mas, também, com menor risco de lesão para os novos pais?
Um novo estudo publicado no último dia 12 na revista científica PLoS One, uma das mais conceituadas de acesso aberto, avaliou o risco de lesão em pais que corriam com os bebês nos carrinhos e aqueles que preferiam correr só.
O resultado da análise foi que a taxa de lesões por milha (equivalente aproximadamente a 1,6 km) corrida foi 55% menor no grupo que realizava a prática com carrinho do que naqueles que corriam sem os seus bebês no transporte.
A pesquisa, conduzida por cientistas da Universidade Estadual da Pensilvânia (Estados Unidos), recrutou 250 voluntários, dos quais 200 eram pais que reportaram correr com os seus filhos no carrinho e 55 para o grupo controle, ou seja, que corriam sozinhos. Os questionários foram enviados online aos participantes, e as respostas eram autorreportadas. Ao final, a análise estatística incluiu 196 respondentes que corriam com carrinho e 53 no grupo controle.
Cerca de 30% (16 de 53) dos participantes que não corriam com carrinho reportaram lesões por excesso de treino, contra 19% (37 dos 196) no grupo de corrida com carrinho. A ocorrência de lesões no primeiro grupo era de 0,42 a cada milha percorrida, contra 0,19 a cada milha nos pais que corriam com carrinho.
Além disso, o grupo de corredores sem carrinho apresentou uma maior incidência de lesões múltiplas, em quatro ou mais locais (como pés, quadris, joelho e tornozelos), de 18%, contra 14% nos pais que correram com carrinho.
Segundo os autores, o menor risco de lesões nos pais que correm com carrinho pode ser explicado pelo fato de que correr enquanto empurra um bebê exige uma regulação do ritmo (pace, definido pelo tempo por milha ou por km) e uma cadência mais consistente, dois fatores associados a uma redução no estresse e na força aplicada nas articulações durante a corrida.
Eles concluem que correr com carrinho de bebê parece ser uma forma de exercício geralmente segura e acessível para mães e pais corredores, com menor incidência de lesões em comparação com quem corre sem carrinho.
Eu mesma, com meus 15 meses de puerpério, posso afirmar que a sensação de correr empurrando um carrinho é outra daquela de correr sozinha. Sozinha você tem momentos de aceleração e depois desaceleração, muitas vezes para alcançar o fôlego ou ajustar alguma dor. Correr na zona moderada pode ser o alvo, mas quem corre sabe que há variação do pace durante a corrida.
Já com carrinho, as vezes que me aventurei nessa empreitada, parece que o corpo vai sozinho enquanto o apoio fornecido pelo transporte do bebê dá estabilidade. Você não nota os 30 minutos da mesma maneira que em uma corrida em tiros rápidos —cansaço, respiração ofegante— ou em ritmo lento —quando a meia hora parece não passar nunca.
Inclusive, já me perguntaram se não dói ou cansa o braço. Os carrinhos adaptados para corrida possuem uma alça de apoio que pode ser presa no pulso, evitando assim que o carrinho "fuja" e você perca o controle. Um sistema de freio no guidão ajuda também a frear se tiver um obstáculo ou precisar fazer uma pausa, sem que haja uma propulsão do bebê.
No fim, as adaptações são necessárias para qualquer pai ou mãe recém-chegados, seja aquele que escolhe correr só ou com o bebê. Mas os benefícios da prática de atividade, aliadas à conexão com o bebê –ele, também, gosta do passeio–, são motivos a favor de calçar os seus tênis já e sair para correr, nem que seja por 30 minutos, com o carrinho.
Ana Botallo é mãe de Laura, um ano, e colaborou para o Maternar nesta edição



