André Luís Lopes Neves passou a infância e a adolescência em Santos, no litoral paulista. Foi nos colégios Stella Maris e Universitário que conquistou vasta simpatia e amizade daqueles que puderam conviver com sua personalidade afável e legitimamente curiosa, temperada por uma aguçada visão crítica da sociedade e de suas tendências. Seu excelente desempenho escolar era equilibrado com interesses diversos como bateria e percussão, instrumentos que tocou em bandas santistas.
Aos 18 anos, o interesse pelas relações humanas e seus aspectos culturais o fez subir a Serra do Mar, para frequentar a FFLCH-USP, onde se graduou em ciências sociais. Em paralelo, formou-se em comunicação social pela PUC-SP.
Foi unindo estas áreas do conhecimento que o antropólogo e documentarista encontrou um projeto que conduziria por quase duas décadas: a preservação e promoção da cultura indígena, por meio de livros e filmes, produzidos a partir de imersão e convívio comunitários com diversos povos.
Seu envolvimento foi além de reportar o que vivia e o que estudava. André participou da formação de cineastas indígenas em sete povos diferentes do Brasil e, na última década, dirigiu e produziu com eles documentários colaborativos.
Seu curta "New York, Just Another City" recebeu o Marsh Short Film Prize de melhor documentário em 2021, no festival de cinema do Royal Anthropological Institute, de Londres (ING). Com câmeras na mão e intimidade com a mesa de edição, os povos originários receberam de André um legado fundamental para a manutenção de sua visibilidade social e humana.
Doutor em antropologia social pela USP, com estágio de pesquisa na NYU (Universidade de Nova York), André transformou sua tese no livro "Ijã Mytyli: os Manoki e os Mỹky em seus Novos Caminhos-Histórias Audiovisuais", premiado como a melhor tese de Inovação da USP. Era membro fundador do coletivo de cinema Ijã Mytyli, dos povos Manoki e Mỹky.
Em 2024, já em tratamento de saúde, André foi recebido no Ministério da Justiça e no Ministério dos Povos Indígenas para discutir o processo de demarcação de terras do povo Manoki. Viu a demarcação ocorrer em 2025, uma das maiores realizações de sua caminhada.
No mesmo ano, ao lado de Typju Mỹky, André dirigiu o documentário "Anfitriões Há Meio Século: a Versão Mỹky da História", recontando a vida do povo antes da chegada dos não indígenas, as transformações no território onde hoje fica a cidade de Brasnorte (MT) e os desafios para manter a cultura viva.
Ele morreu no dia 21 de agosto, aos 43 anos. Deixa mãe, pai, irmãos e uma legião de amigos e amigas que seguem aprendendo com este ser humano humilde, generoso, de humor afiado, que viveu com autenticidade e propósito.
