Quando Regina Fátima Caldeira lê braille, pode assistir porque trata-se de um espetáculo. Suas mãos passam rapidamente pelo papel, e parece um milagre que nesse gesto ritmado e suave tantas letras, palavras e frases estejam se formando em sua cabeça. Para Regininha, como é carinhosamente conhecida, é uma relação mágica, e foi graças ao braille que ela pôde se tornar uma criança "como todas as outras".

Regina nasceu com glaucoma, mas sua mãe só percebeu algo errado aos três meses, quando a filha virava a cabeça em dias de sol, incomodada pela luz. Foram muitos os médicos e promessas para que não perdesse a visão. As amigas da mãe a vestiam de anjo com cetim, asa e uma coroa que apertava seu corpo de menina e a levavam na procissão de Sexta-Feira Santa na espera de que ela se curasse. Mas Regina não gosta de promessas, é uma relação muito mercantilista com Deus e até hoje tem aversão ao toque do cetim nos dedos.

Aos seis anos, ela e a mãe viram Dorina Nowill na TV, contando como havia cantado "Tico Tico No Fubá" para os policiais da fronteira nos EUA. Foi o primeiro contato com alguém cego que tinha uma vida "normal". Regina ainda não tinha consciência da sua deficiência, talvez porque tenha nascido com ela, talvez porque, apesar de tudo, a mãe não a superprotegia e ela era uma criança que subia em árvore e brincava na rua.

Aos sete anos, sentiu um jato de areia nos olhos, uma dor tão terrível que ela lembra de cravar as unhas na parede para aliviá-la. No hospital, o médico constatou que o olho direito havia supurado e só restava extraí-lo. Apesar do susto, depois da cirurgia os anos de dor finalmente cessaram e ela lembra do alívio que foi dormir profundamente pela primeira vez. Com o tempo, perdeu o que restava da visão do olho esquerdo.

Na época, tinha aprendido parte do alfabeto num tabuleiro de letras coloridas que a mãe tinha dado. Mas queria mais, queria ler, escrever e ir para a escola.

Aos oito, diante da insistência da filha, dona Lurdes saiu cedo de casa e disse que só voltava quando encontrasse uma solução. Foi parar na Fundação do Livro do Cego no Brasil, hoje Fundação Dorina Nowill. Quando Regininha subiu a rampa de lá pela primeira vez, soube na hora que havia encontrado seu lugar.

Uma professora começou a ir a sua casa prepará-la para o braille, mas o diretor da escola estadual em que deveria entrar não quis deixá-la fazer o curso. Havia uma lei de 1953, que a própria Dorina aprovara, e garantia o direito de crianças cegas em escolas regulares, mas ainda assim, o diretor não quis ceder.

Diante da insistência, deixou que ela fizesse o curso como ouvinte e, se provasse sua capacidade, se matricularia no ano seguinte, perdendo assim, o ano letivo.

Sua alegria ao falar do primeiro dia de aula é comovente. E foi a fundação que produziu sua primeira cartilha, "Caminho Suave", que, fora a letra Z, ela já lia inteira. Sempre que passava pela imprensa Braille, pegava um livro. O barulhinho da prensa imprimindo livros era seu barulho predileto e até hoje tem vontade de chorar quando ouve. Lia e relia o mesmo livro sem parar, até chegar um novo. "Era desespero de leitura" que tinha.

No dia do exame final, o diretor esperou na porta enquanto a professora especializada transcrevia para tinta a prova que tinha feito em braille. A nota foi 98 e ela se matriculou oficialmente no segundo ano. Já formada, conseguiu uma vaga de telefonista na fundação.

Todo dia, Dorina ia até ela e passava mais de 20 nomes para quem deveria ligar. Ela anotava com a reglete numa eficiência assustadora. Um dia, Dorina perguntou como ela decorava tantos nomes e ficou chocada ao saber que ela os escrevia. Ela conseguiu que Regina fizesse um estágio na Espanha e, aos poucos, foi assumindo cargos importantes, formou-se em letras e hoje é referência internacional no campo do braille.

Regina é entusiasta da tecnologia, mas defende a importância da alfabetização da criança cega pelo braille, pois só por meio dele pode ter o mesmo desenvolvimento cognitivo da criança que enxerga. Os adultos podem até abrir mão do braille, mas ela gosta de ter autonomia e privacidade para ler seu extrato bancário ou escolher o prato no restaurante.

Trabalhar lendo é um sonho realizado, só de "O Tempo e o Vento" foram 72 volumes revisados. O que mais ama no trabalho é que o braille, assim como a escrita, não para de evoluir.

Regina luta por inclusão, não por privilégios. Para ela, todos devem se preparar para usufruir de seus direitos e cumprir com seus deveres.