Uma corretora de câmbio instalada numa galeria da avenida Paulista, em São Paulo, foi peça central de um suposto esquema montado para lavar dinheiro do PCC (Primeiro Comando da Capital) em operações do tráfico internacional de drogas, apontam investigações da Polícia Federal.

A empresa está numa galeria próxima à avenida Brigadeiro Luís Antônio e fica numa sala pequena, decorada por um aquário e adesivos de cédulas estrangeiras.

Os entorpecentes, segundo a PF, eram escoados primeiro a partir do porto de Santos, rota que depois se espalhou por terminais do Nordeste ante o aperto na fiscalização do maior porto da América Latina.

Como mostrou a Folha, operações do tráfico internacional ocorrem hoje em todas as regiões costeiras do país. Os terminais têm adotado novas medidas de segurança, enquanto os grupos investem no recrutamento de mergulhadores.

A investigação diz que a Marmaris Corretora de Câmbio "teria o papel de internalizar no Brasil o dinheiro proveniente do exterior, por meio de balanços no sistema criminoso dólar-cabo" —um método clandestino de transferências internacionais que não são registrados no sistema bancário oficial.

O dólar-cabo funciona por meio de compensações financeiras. Um operador recebe recursos em um país; em outro, outra pessoa disponibiliza o valor correspondente. Os dois depois se acertam por outros meios que não os legítimos.

A PF diz que o proprietário da Marmaris, Marcos Alexandre Agustoni, exerceu "papel crucial" na lavagem de dinheiro do grupo. A corporação chegou até o nome dele após a quebra de sigilo de um dos alvos do inquérito.

Procurada três vezes por mensagem entre a quarta (26) e a terça (1º), a defesa de Agustoni feita pelo advogado Airton Jacob Gonçalves Filho disse que se manifestaria a respeito do caso, mas não respondeu até a publicação desta reportagem.

Em juízo, seus advogados afirmam que Agustoni "não tem qualquer ligação com o tráfico de entorpecentes" e que "são atribuídos a ele apenas atos relacionados aos liames financeiros". O caso aguarda julgamento.

A PF diz ter identificado mensagens que indicam a atuação de Agustoni numa remessa de US$ 1,7 milhão (R$ 8,67 milhões, na cotação atual) a ser recebido em Roterdã, na Holanda. Em outras conversas, ainda segundo a PF, ele trata com investigados de rotas internacionais do tráfico.

A corporação fez buscas na casa de câmbio e apreendeu R$ 120,5 mil, US$ 25,9 mil (R$ 132 mil) e 2.625 euros (R$ 15,5 mil) em espécie, além de computadores e celulares.

A PF também diz que a segurança do estabelecimento era feita por agentes expulsos da Rota, a tropa de elite da Polícia Militar de São Paulo, mas não chega a identificar esses agentes.

A investigação do caso começou em 2021, em João Pessoa, após a prisão de dois italianos acusados de integrar a máfia italiana 'Ndrangheta. Os dois foram extraditados a pedido da Itália e um deles, Vincenzo Pasquino, disse à PF conhecer a ligação entre Agustoni e outros investigados.

A Justiça decretou a prisão do proprietário da casa de câmbio em 2024, quando a operação sobre o caso foi deflagrada, mas ele não foi preso de imediato.

Segundo a PF, funcionários do condomínio se negaram a informar o número do apartamento dele e só liberaram a entrada dos agentes federais quando a Polícia Militar compareceu ao local. Àquela altura, porém, Agustoni já havia deixado o local pela escadaria do prédio.

Ele ficou oito meses foragido até ser detido em agosto do ano passado. Acabou solto em março deste ano sob medidas cautelares. Usa tornozeleira, não pode deixar a comarca sem autorização e tem horário para chegar em casa.

A primeira denúncia sobre o caso veio no ano passado e acusa Agustoni e outras nove pessoas de organização criminosa e associação para o tráfico. O processo ainda está em fase inicial. O MPF ainda apura o delito de lavagem de dinheiro num inquérito independente —a defesa dos acusados critica essa investigação, que para eles se arrasta há mais tempo do que deveria.

Em julho deste ano, a Secretaria de Administração Penitenciária de São Paulo encaminhou ao TRF-5 (Tribunal Regional Federal da 5ª Região) relatório que aponta possível violação das regras da tornozeleira de Agustoni. Seus advogados rebateram: o empresário, segundo eles, havia buscado as filhas na escola.

A Justiça ainda não se manifestou sobre o episódio.

O caso da Paraíba não é a única investigação que aponta o uso de casas de câmbio para lavar dinheiro do tráfico internacional. Operações do gênero acabam sendo uma necessidade logística, diz o professor da USP Leandro Sarcedo, doutor em direito penal pela mesma instituição.

"Você não consegue pôr esse dinheiro no banco. Tem de haver gente por trás para dar lastro à movimentação desse tipo de recurso", diz.

Ainda segundo ele, é por isso que investigações sobre tráfico internacional costumam também avançar para crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas ou ocultação de patrimônio.

Em Santa Catarina, um inquérito aberto pela PF no ano passado contra uma organização rival do PCC, o PGC (Primeiro Grupo Catarinense), aliado do Comando Vermelho, fala no mesmo modo de atuação.

O esquema seria comandado por Ângelo Scotti Júnior, conhecido como Cabelo. Ele foi preso em maio deste ano. Sua defesa disse à Folha que não teve acesso à íntegra dos autos e que se manifestará "após ter conhecimento de todos os fatos que lastrearam a acusação".

Segundo as investigações, a operação de vendas na Europa incluía pagamentos fracionados em euro e a remessa dos valores ao Brasil a partir de criptomoedas.

Quem coordenava esses repasses era o empresário Maycon Marcos, proprietário da Smart Business, uma financeira que prometia retornos de 3% a 5% ao mês, percentuais acima dos praticados pelo mercado segundo a PF. A defesa de Marcos disse à reportagem que ainda não teve acesso aos autos.

A PF diz que diálogos interceptados entre Maycon e Ângelo mostram que o dono da Smart tratava o líder da organização criminosa em Santa Catarina como "um cliente diferenciado", já que "Maycon até toma o cuidado de indagar em nome de quem" os investimentos seriam registrados —uma forma, segundo a polícia, de ocultar seu verdadeiro titular.